segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Sexo Frágil? Violência e o Movimento Suffragette" - Parte II

"Quebrei janelas
Bati na cara de um inspetor
E tirei sua cobertura
Usei chicote
Tentei tirar um policial do cavalo
E ainda assim eles não me deram o voto!"

Cartunista do Daily Mirror W. K. Haselden, 02/07/1909.

Então, o que constituiu a "Fúria Suffragette"? Uma das notas mais antigas do termo veio do Morpeth Herald de 20 de novembro de 1909, quando Theresa Garnett (reportada internacionalmente como Gurnett) atacou um jovem Winston Churchill com um chicote de cavalo na plataforma da estação de trem Bristol. No mesmo mês Selina Martin e Leslie Hall se disfarçaram de vendedoras de laranjas e, armadas de catapulta e mísseis, atacaram o carro do primeiro ministro Herbert Asquith em Liverpool. No ano seguinte, uma das primeiras instâncias de dano físico a um membro do público causado por suffragette foi registrado em Battersea: um clérigo sofreu queimaduras enquanto tentava impedir uma suffragette de lançar um líquido indefinido sobre os papéis de um membro do parlamento.

Riscos de injúria ao público têm sido veementemente negados por aqueles que salvaguardam a memória das suffragettes, mas os jornais (e até mesmo as anotações das próprias militantes suffragettes) provam que houve numerosas instâncias onde ocorreram injúrias e aonde o risco pessoal, inclusive com ameaça de morte, era grande. Um dos mais terríveis ataques suffragettes ocorreu em Dublin em 1912. Mary Leigh, Gladys Evans, Lizzie Baker e Mabel Capper tentaram incendiar o Teatro Royal durante uma matinê apinhada com a presença de Asquith. Elas deixaram um lata de pólvora negra perto do tablado e jogou gasolina e acendeu fósforos na cabine de projeção, que continha rolos de filme altamente inflamáveis. Mais cedo naquele dia, Mary Leigh atirou um machado contra Asquith, que por pouco não o acertou e em vez disso atingiu o parlamentar Nacionalista Irlandês John Redmond na orelha. O foco de Redmond na campanha para o Governo Nacional levou à sua recusa em inserir uma cláusula dando às mulheres o voto, confirmando sua situação como alvo.

Inquérito policial na Saunderton Railway Station
após um ataque incendiário suffragette. 09/03/1913
O ano de 1912 presenciou uma crescente de escalação da violência vinda das militantes suffragettes. A Galeria de Arte de Glasgow teve suas caixas de vidro estilhaçadas; janelas de bancos e ofícios postais foram quebradas desde Kew até Gateshead; em 23 de setembro troncos da fiação de telégrafo foram cortados na London Road no Potters Bar, e em 28 de novembro ataques simultâneos em caixas de correio ocorreram ao longo de todo o país. Até o fim daquele ano, 240 pessoas tinham sido encarceradas por atividades militantes suffragettes. Os jornais começaram a trazer resumos semanais dos ataques, com o Gloucester Journal e o Liverpool Echo contendo colunas dedicadas a cobrir os ataques mais recentes. No início de 1913 uma suffragette atacou as cabinas de vidro da Casa de Joias da Torre de Londres, enquanto em Dundee, quatro carteiros foram seriamente injuriados por compostos de fósforo deixados nas caixas postais. Em Dumbarton vinte fios de telégrafo foram cortados; o orquidário de Kew Gardens foi atacado e a casa de chá incendiada. Em Ilford, os alarmes das ruas tiveram suas fiações destruídas e em Saunderton a estação de trem foi destruída, enquanto placas escrito "Votos pelas Mulheres" e "Incêndios por Votos" foram postas em posições destacadas. A Estação Croxley próxima a Watford também sofreu destino semelhante, apesar de o ataque não ter sido inicialmente atribuído às militantes até que um jornal suffragette foi entregue ao chefe da estação com uma inscrição rabiscada: "Cópia temerosa deixada para queimar". Kitty Marion também continuou seus próprios ataques, como aquele que deixou um trem, posto entre Hampton Wick e Teddington, quase totalmente destruído pelo fogo nas primeiras horas do sábado de 26 de abril.

O caderno de anotações de Marion continha referências à queima desses carros e, se dermos crédito que ela manteve isso como anotações de seus próprios ataques, isto indica que ela teve parte em tais destruições. Seu conhecimento extenso sobre todo o país, fruto de seu estilo de vida como musicista itinerante, permitiu a ela localizar pontos de importância cultural que poderiam ser usados por militantes suffragettes.

Aqueles ataques foram trazidos por um grupo grande e disjunto de ativistas pelo sufrágio operando individualmente ou por um pequeno grupo de ativistas militantes conectadas entre si? Um estudo recente do departamento de sociologia da Universidade de Manchester descobriu evidências surpreendentes. Durante o período de 1906 a 1914 ocorreram 1.214 aparições de ativistas suffragettes, porém a maioria delas só tinha aparecido diante do juiz por crimes relacionados à militância uma vez antes. Isto sugere que a teoria de atividade militante em larga escala levada a cabo por um punhado de mulheres dedicadas é improvável.

Kitty Marion detida após inportunar Lloyd George
na Royal National Eisteddfod, Wrexham. 05/09/1912.

Ainda assim há evidência que múltiplos ataques tenham sido executados por perpetradores simples. A mão de Kitty Marion é evidente em ataques desde Manchester até Portsmouth; o escopo de seus ataques se encaixa claramente nas áreas em que ela tornou-se bem conhecida durante seus tempos de festivais de teatro e música, o que lhe deu acesso à luxúria de uma rede já estabelecida de hospedarias e conhecimento local, permitindo-lhe visitar áreas e conduzir atividade militante.

Mulheres operando em áreas locais também podem ter se tornado fontes de séria violência. Olive Hocken apareceu diante dos magistrados em 28 de março de 1913, acusada de: um ataque incendiário no Pavilhão de Golfe de Roehampton; no Orquidário Kew Garden; corte de fios telefônicos e telegráficos e destruição de cartas. Sua notoriedade chegou aos Estados Unidos, com o Boston Herald trazendo uma reportagem sobre seu julgamento e afirmando que sua casa em Kensington foi "um terminal onde pessoas reuniam-se, armavam-se e preparavam-se para qualquer incursão furiosa do momento".

Cartão-postal satírico,
mostrando fantasia suffragette, c. 1913
A violência suffragette alcançou seu auge na primavera e no verão de 1913. Em maio uma bomba foi encontrada no lado de fora do Bank of England e campos de boliche e hipódromos foram alvos de incêndios e destruição. Quando a Men's League for Women's Suffrage reuniu-se no Hyde Park, ela foi interpelada por uma multidão gritando "vão para casa fazer bombas" e "quem pôs a bomba no St. Paul?". Em retaliação à violência, o governo enquadrou a organização que se acreditava ser a responsável por encorajar as mulheres violentas. A WSPU foi banida de realizar encontros ao ar livre, bem como cartas da liderança foram várias vezes encontradas entre os pertences dos réus. As militantes revidaram e uma porção de proeminentes membros da sociedade que se opunham ao sufrágio viram suas casas destruída por dispositivos incendiários. Estátuas foram desfiguradas e museus, igrejas e mansões foram forçados a fechar para o público em razão do medo que fossem os próximos alvos. Os métodos de ataque também parecem ter evoluído, como mostrado pelos reportes circundando uma bomba deixada dia 21 de maio no Royal Astronomical Observatory, em Blackford Hill, Edinburgh:
O esquema já tinha sido bem arquitetado. Obtendo entrada, os perpetradores conseguiram levar a bomba ao topo da escada espiral debaixo do domo e transportar um fusível de 30 pés [NT2] de comprimento para a sala do cronógrafo, onde ele foi incendiado por meio de uma vela de cera, cujos restos foram encontrados. A quantidade de pólvora usada deve ter sido considerável, já que os fragmentos do pote de barro que a continha ficaram impregnados no muro e na marcenaria, e o vidro de duas janelas foi atirado e atingiu uma distância considerável. Uma sacola, alguns biscoitos, e literatura suffragette foram deixados para trás.

No mês seguinte, 4 de julho, Emily Wilding Davison morreram depois de caírem debaixo dos cascosdo cavalo real no Epson Derby. Sua morte disparou reações de todos os lados do movimento suffragette, mas a reação mais violenta veio de Kitty Marion, que, juntamente com sua companheira Clara Givens, incendiou o pavilhão do Hust Park Racecourse depois do ensino do seu "Supremo Sacrifício". Isto levou à sua subsequente captura e prisão. Kitty agora tornara-se mártir da causa: cultos em igrejas foram perturbados por gritos em apoio à sua liberação e foi revelado em uma bomba descoberta no Lyceum Theatre, Taunton, ter as palavras 'Votos para Mulheres', 'Juízes, Cuidado', 'Mártires da Lei' e 'Soltem Nossas Irmãs' em seus lados.

Footnotes:
  • [NT2] Aproximadamente 9,15m

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