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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Alguns Pensamentos Sobre 'Zootopia'" por ToySoldier

Alguns Pensamentos sobre Zootopia


Finalmente eu vi o filme Zootopia, da Disney. Foi o filme animado mais recente. Como o nome sugere, o filme é sobre uma utopia de animais (apenas mamíferos). Judy Hopps (dublada por Ginnifer Goodwin) trabalha a vida toda para tornar-se o primeiro coelho policial apesar da sua pequena estatura. Ela ingressa na força policial e é escalada para o ramo principal em Zootopia. Porém, assim que ela chega, ela descobre que a cidade onde todo mundo pode ser qualquer coisa que quiser ser não é o paraíso que ela esperava.

O filme parece ter uma tomada em políticas raciais, porém, algumas feministas tomaram a mensagem como sendo sobre políticas de gênero, e eu posso ver por quê.

Judy é uma coelha. Todos os seus tratos - pequena, fraca, doce, emocional - são usualmente associados a mulheres e à feminilidade. Durante seu treino para tornar-se uma agente policial, Judy recebe uma grande monta de comentários condescendentes e preconceituosos que parecem semelhantes ao que alguém diria a uma mulher (ironicamente, todos eles são proferidos por uma ursa polar fêmea). Quando Judy chega ao ramo principal de Zootopia, em vez de receber um dos casos de predadores desaparecidos, Judy é posta de policial de tráfego. Seu desempenho estelar na academia não significa nada. O chefe simplesmente quer a coelha cotista [1] fora do caminho.

Muito disso também se encaixa na discussão sobre raça e viés em geral, porém, eu penso que fixar-se no ângulo do gênero fornece uma interessante compreensão no que os produtores do filme realmente fizeram.

Um dos elementos chave do filme é o otimismo de Judy. Ela quer ser uma agente policial mesmo que seu tamanho torne isso dificíl, se não impossível. Todos parecem ser contra seu sonho, mesmo seus pais (a cena deles falando para ela abandonar os seus sonhos é na realidade bem divertida). O fator em jogo é a "raça" de Judy. Coelhos e outros herbívoros são "presa". Carnívoros e onívoros são "predadores". Estes dois formam os grupos raciais no filme. Em certa extensão, eles formam também os grupos de gênero, com as presas sendo fêmeas e os predadores machos. Neste ponto, a vasta maioria dos predadoes, e creio que a totalidade dos violentos, é macho.

Judy explica na abertura do filme como predadores superaram sua natureza violenta e as presas superaram seu medo. Eles podem ser qualquer coisa que quiserem, especialmente se forem para a maior cidade do mundo, Zootopia.

Porém, as coisas não são tão utópicas quanto parecem ser. Alguns predadores ainda são perigosos. Judy aprende isto enquanto criança, quando ela tenta defender alguns companheiros estudantes de uma raposa valentona apenas para ser nocauteada e arranhada na cara. Seu otimismo a impede de julgar o garoto, de nome Gideon. Ela parece vê-lo como um valentão que acabou por ser uma raposa, em vez de uma raposa que faz aquilo que raposas fazem.

Ou é isso que devemos estar pensando. Quando Judy segue para Zootopia, seus pais lhe dão uma pletora de equipamentos de defesa anti-raposa. Ela pega o repelente de raposas apenas para fazer seus pais pararem. Não obstante, antes de Judy ir para seu primeiro dia de trabalho, ela inicialmente deixa o repelente e então volta para o seu apartamento para buscá-lo. Esta é nossa primeira dica de que Judy pode parecer otimista mas mesmo ela tem seu viés.

Nós vemos isso em amostra completa quando ela encontra Nick Wilde (dublada por Jason Bateman). Ela avista a raposa andando de forma bem evasiva e ela o segue. Seus instintos lhe dizem que ele não é bom, não obstante ela descobre que ele só queria comprar um picolé para seu filho.

Este é nosso primeiro gostinho da real Zootopia e do preconceito às claras. O elefante recusa-se a vencer para Nick o picolé porque Nick é um predador.

Claro, nesta instância Judy tinha razão em ter suspeitas. Nick trapaceia ela e o elefante completamente. Quando Judy descobre o truque e confronta Nick, ele estilhaça suas noções pré-concebidas sobre bondade e igualdade em Zootopia.

Se mantivermos a ideia feminista que o filme trata de gênero, este cenário apresenta um problema crítico porque Nick e os outros predadores representam "os homens". Eles deveriam ser os que detêm "privilégio", mesmo assim são os que enfrentam discriminação aberta nas mãos das presas.

Isto é melhor mostrado naquela que considero a cena mais forte do filme. Quando encontramos Nick pela primeira vez, ele é esquivo, ardiloso, e manipulativo. Judy tem que tapear o Nick para que a ajude, e Nick segue a sua maneira a fim de sabotar sua investigação dos predadores perdidos. Suas estripulias levam Judy a potencialmente perder o emprego dos sonhos. No momento que ele nota isso, ele decide ajudá-la. E então ele explica por que ele é como é:

Quando eu assistia a esta cena, a primeira coisa que me veio na cabeça foram todos os homens que frequentam cursos de estudos de gênero. Pensei sobre como deve ser o sentimento de querer fazer algo significativo apenas para que te digam que você é uma ameaça às mulheres e que precisa checar seu privilégio e que não pode nunca verdadeiramente ser digno de confiança. EU pensei sobre as multidões de homens feministas que tentam o seu máximo para alcançar estes padrões impossíveis sem jamais saber o que fizeram de errado, E eu penso nos montes de homens que simplesmente dizem "Ah, quer saber? Foda-se!".

Ou como Nick diz:
Se o mundo só vê uma raposa como sendo desleal e desonesta, não há sentido em tentar ser outra coisa.

Esta parece ser a mensagem que muitos homens obtêm do feminismo. Em um nível mais abrangente, esta parece ser a mensagem que muitos brancos tomam das discussões sobre raça. Isto também acontece com muitos pobres e minorias. Parece que quando pessoas julgam outro grupo com tamanha severidade, isto cria um viés auto-perpetuador. Nick é uma raposa desonesta porque ele foi tratado como uma.

Esta é uma cena dos diabos, e é uma que mina completamente o ângulo feminista porque não é executada como uma boa mensagem. Ela é tratada como preconceito.

Nós vemos isso mais tarde no filme quando Judy finalmente ganha a confiança de Nick após resolverem o caso. Ninguém pode explicar por que alguns predadores retornaram a seus primitivos modos predatórios, como Judy admite em uma comitiva de imprensa. Ela afirma que talvez seja uma causa biológica, que esteja na natureza dos predadores ser violento. Obviamente isto machuca Nick profundamente, particularmente quando ele vê alguns dos predadores amordaçados como aconteceu com ele quando criança.

Dado que este é um filme Disney, ele não poderia ficar com essa brecha. Mesmo assim o que aconteceu não foi Nick se desculpando com Judy. Foi Judy admitindo que ela não era tão livre de vieses como alegava ser. Existe um tanto de manipulação emocional na cena, mas no geral é algo um tanto incomum. Quantas vezes vemos uma personagem feminina desculpando-se para um personagem masculino, quanto mais sendo ela a que de fato está errada?

Se este é um filme feminista, então o que aconteceu é que a feminista admitiu que estava sendo sexista e desculpou-se.

Eu não penso que este é um filme feminista ou de justiça social. Eu penso que é um filme que olha para o viés de uma perspectiva objetiva, mostrando que qualquer um - até mesmo aqueles que se consideram desprivilegiados - pode ater-se a vieses. Eles não vão desaparecer magicamente só porque admitimos que eles existem. O mundo não é um lugar perfeito, e provavelmente nunca será uma utopia. Porém, se reconhecermos e confrontarmos nossos vieses, talvez podemos fazer desse mundo terrível algo um pouco melhor.

Esta é uma mensagem muito boa para um filme Disney muito belo.


FootNotes:
[1]No original, "token rabbit".

META
Título Original Some thoughts on Zootopia
Autor Toy Soldier
Link Original https://toysoldier.wordpress.com/2016/06/11/some-thoughts-on-zootopia/
Link Arquivado https://archive.today/qACBM

domingo, 13 de novembro de 2016

"Nerds e Feminismo..." por ToySoldier

Nerds e Feminismo: Feministas Agindo Maldosamente

Já estamos na segunda semana do ano, e feministas começaram o ano em grande estilo indo atrás dos homens mais opressores de todos os tempos: os nerds.

OK, feministas se empenharam em grandes disputas de espancamento contra nerds no verão passado com a radiação do GamerGate. A rodada corrente, porém, tem uma causa distinta.

Scott Aaronson, um blogueiro e cientista, escreveu um comentário descrevendo seu medo de aproximar-se de mulheres quando era mais jovem:
Eu passei meus anos de formação - basicamente dos meus 12 até 20 anos e meio - sentindo-me não "beneficiado", nem "privilegiado", mas apavorado. Eu andava apavorado que uma das minhas colegas de classe viesse de alguma maneira a saber que eu a desejava sexualmente, e no instante que ela soubesse, eu seria zombado, chacoteado, chamado de esquisitão e assustador, talvez até expulso da escola ou posto na prisão. E além disso, que as pessoas que fizessem tais coisas a mim estivessem de alguma forma moralmente corretas em fazê-lo - mesmo que eu não pudesse entender como.

O medo de Aaronson adveio do feminismo, especificamente a noção feminista que todas as interações entre homens e mulheres contivessem um diferencial de poder que homens usam para explorar as mulheres. Aaronson tentou conformar-se às demandas feministas, mesmo assim isto apenas piorou a situação, a ponto de ele ter contemplado suicídio.

Alguém poderia pensar que tais revelações motivariam simpatia, mas estaria errado. O que se seguiu foi um amontoado digital de feministas da maior parte dos blogs esquerdistas e feministas mais proeminentes. Todos empregaram o mesmo argumento: Aaronson é um idiota beneficiado e privilegiado. Ele respondeu a esses comentários, notando que feministas estavam apenas mostrando como seu medo era justificado. Como ele notou:

Eu tomei o mais dramático e auto-sacrificial passo que eu poderia tomar que as pessoas vissem como eu era, em vez de acordar para alguma moldura mental de "homem cientista beneficiado, privilegiado da elite". E muitos responderam usando a moldura ainda mais firmemente, retorcendo minhas palavras até elas encaixarem, e então congratulando-se uns aos outros pela sua bravura nesse proceder.

Aqui, claro, esses twitteiros (e facebookeiros e redditores) inconscientemente ajudaram a basear meu argumento por mim. Alguém ainda não entendeu o tipo de medo paralisante que eu tive que suportar quando mais jovem, que milhões de outros nerds suportam, e que eu tentei explicar no comentário - o medo que pessoas civilizadas fossem condenar-te assim que descobrissem quem você realmente é (mesmo que a realidade pareça longe de incomumente ruim), que sua única escapatória seja mentir ou esconder-se?

Mesmo assim, esta resposta instigou nada além de críticas de feministas, e o amontoado continuou. Por exemplo, Harris O'Malley escreveu dois artigos sobre Aaronson, porque aparentemente apenas um soco malévolo nos intestinos não era o suficiente. O'Malley inicia seu segundo golpe em sua solenidade:
Esta ideia - de que nerds e geeks são injustamente malignizados, que eles são o nível mais baixo do totem social e são incompreendidos, caluniados e perseguidos (!) - é bem comum. Somos oprimidos! Temos sido vítimas de valentões, azucrinados e insultados, como podemos ser privilegiados?!

Esta é uma réplica feminista comum. A intenção é óbvia: como homem, nada de ruim pode verdadeiramente te acontecer. Sua vida é uma moleza. O'Malley demonstra esse argumento fazendo um monte de falatório ácido contra nerds sobre quão horríveis são as coisas para mulheres. Coisas ruins acontecem a mulheres, e tais coisas não ocorrem a homens (exceto quando ocorrem...), ergo ... vis à vis ... concordantemente ... homens são privilegiados.

O'Malley tenta sofismar daí:
Uma das respostas mais comuns que homens têm em discussões sobre privilégio - especialmente quando intimados a reconhecer seus privilégios - é negar que ele exista. "Minha vida não tem sido fácil", eles podem dizer. "Olhe de todas as formas, minha vida não tem sido justa! Olhe de todas as formas que eu tenho me estrepado!" E sejamos justos: eles não estão errados. Sim, homens, mesmo os brancos héteros, lidam com coisas ruins na vida. Eles podem ser pobres. Podem ser doentes ou ter deficiências. Suas vidas podem bem ser uma longa série de episódios onde Lucy tira a bola de Charlie Brown. Os deuses podem bem tê-lo selecionado para ser um eterno idiota azarado, fadado a sofrer em favor da diversão de um cosmo indiferente.

Sinto um cheirinho de "porém" vindo:

Porém, eis onde o privilégio aparece: por ruins que possam ser as coisas, quão piores elas poderiam ser se ele fosse gay? Se fosse trans? Se fosse uma minoria étnica?

E se fosse uma mulher?

Porque, como todos bem sabemos, nada é pior que ser mulher. É muito melhor ser homem gay, transgênero, ou uma minoria étnica do que ser mulher. O mínimo que pode acontecer àqueles três grupos é que as pessoas simpaticamente tentarão:


Em contraste, mulheres serão "assediadas, perseguidas, ameaçadas, caçadas de suas casas e até mesmo SWATeadas sobre opiniões acerca de video games", o que nunca acontece com homens.

Tudo o que esse embaraçamento da vítima faz é lembrar aos nerds que o que aconteceu a eles não foi tão ruim. Poderia ser "pior", como se possuir um cromossomo X, pele escura, ou uma preferência sexual por membros do mesmo sexo tornasse a intimidação, discriminação e ódio doer mais.

O'Malley também tenta o joguinho do "eu sou um de vocês":
Não me levem a mal: eu sou mais que simpático aos meus companmnheiros geeks. Eu escrevi antes sobre crescer com os mesmos medos, crenças auto-restritivas e problemas de identidade que vêm com ser uma pola pálida e esquisitona de ansiedades.

Novamente, sinto um "porém" chegando:
Porém, o problema é que não somos os oprimidos; nós apenas continuamos nos dizendo que somos.

Para registrar, "porém" é um termo de negação. Ele é usado para mostrar que a cláusula anterior não é inteiramente verdadeira. Então, o que O'Malley realmente quer dizer é que ele não é simpático aos geeks. De fato, ele pensa que os problemas que eles enfrentam estão todos em suas cabeças:
As histórias que nos contamos a nós mesmos moldam como vemos o mundo, e a ideia que nerd s geeks são fracos, sem poderes e socialmente indesejáveis acaba nos cegando não apenas para nossa real posição no mundo, mas para os efeitos da nossa própria conduta. Quando você diz a si mesmo que você é o herói por tempo o bastante, você tende a não ver que está agindo como o vilão.

Batman, tem algo que gostaria de compartilhar?



Não apenas O'Malley cita erroneamente o adágio (o correto é "ou você morre herói ou vive o bastante para se ver tornando vilão"), mas ele segue com um
Agora sejamos claros: não estou chamando os geeks de o cara mau.

Pelo amor de ...



O'Malley afirma: "Quando você diz a si mesmo que você é o herói por tempo o bastante, você tende a não ver que está agindo como o vilão". Eu vou colocar de lado a óbvia ironia de essa afirmativa vir de alguém que perdeu dois longos artigos surrando nerds. As afirmações citadas implicam que se você é um nerd que se considera um cara legal, então você na realidade é um vilão.

Ainda assim sinto mais um "porém" se aproximando:
Porém, mitologizando os nerds como pessoas sem auto-estima e sem poder, acabamos não vendo como tratamos mal os outros ao agir, ironicamente ... da mesma forma que os atletas e valentões agem contra nós.

Você sabe, não acho que isto vai vem com interrupções, então vou postar a citação toda na sequência:

As histórias que contamos a nós mesmos moldam como vemos o mundo, e a ideia que nerds e geeks são fracos, sem poder e socialmente indesejáveis acaba nos cegando não apenas para nossa verdadeira posição no mundo, mas para os efeitos de nossa própria conduta. Quando você diz a si mesmo que você é o herói por tempo o bastante, você tende a não ver que está agindo como o vilão.

Agora sejamos claros: não estou chamando os geeks de o cara mau. Porém, mitologizando os nerds como pessoas sem auto-estima e sem poder, acabamos não vendo como tratamos mal os outros ao agir, ironicamente ... da mesma forma que os atletas e valentões agem contra nós.

Estou totalmente impressionado. Esta é uma dupla negação. O'Malley acusa nerds de fabricar suas experiências negativas e acusa que eles são vilões, depois acusa que não são vilões, e então imediatamente reacusa-os de serem vilões. É raro ver esse de duplo padrão da mais alta qualidade fora da política. Novamente eu estou muito impressionado.

O'Malley não acabou ainda. Ele não apenas quer que nerds conheçam que nada ruim de fato acontece com eles e que com outros grupos (mas de verdade mesmo só com mulheres) é pior, mas que nerds agora são os populares:
Francamente, os nerds venceram. A cultura nerd é cultura, ponto. Dos 50 filmes mais lucrativos de todos os tempos apenas um deles - Titanic - não é um quadrinho ou propriedade geek. Guardians of the Galaxy foi o filme mais lucrativo do ano. The Avengers: Age of Ultron e Star Wars: The Force Awakens são os arrasa-quarteirões mais aguardados de 2015. A lista da TV Guide dos programas mais populares da América inclui Marvel’s Agents of SHIELD, Game of Thrones, The Walking Dead, The Originals, Sleepy Hollow, Reign e Arrow. Qualquer Barnes and Noble está estufada de toneladas de brinquedos, calendários e extravagâncias do Doctor Who. Video games saíram da província dos "molecões imaturos vivendo no porão" para algo que todos fazem - os atletas jogam tanto Call of Duty, Destiny e NFL 2015 quanto os geeks e todo mundo com seus cachorros estão jogando Angry Birds, Bejewelled e Candy Crush Saga. Todas as nossas vidas - trabalho, amizades, romance - tomam lugar online agora. Joss Whedon está no comando de uma das mais ambiciosas e frutíferas franquias de cinema de todos os tempos; Elon Musk está posicionando-se a si mesmo como um Tony Stark da vida real; Bill Gates dominou nossos computadores; Steve Jobs redefiniu como consumimos música, televisão e colocou a Internet em todos os bolsos; Bill Nye the Science Guy está no Dancing With the Stars; Neil deGrasse Tyson é uma tremenda estrela, e Mark Zuckerberg sabe quando você se masturba controla sua vida social.

Você quer dizer, assim como todo mundo ouve hip hop e R&B, ama atletas negros, adotou o estilo e gírias das comunidades negras, desfruta de sua comida, copia seus penteados e trejeitos, e elegeu duas vezes um presidente mestiço? Certamente se todas essas coisas aconteceram então não há como os negros ainda sofrerem racismo, certo? Isso deve ter acabado, basta ver quantas pessoas aceitam-nos e aceitam sua cultura, correto?

É como se O'Malley não tivesse nenhum conceito de cultura e interesses populares. Que estas coisas nerds atinjam a cultura pop não quer dizer que todos as aceitam. Só quer dizer que elas estão na vibe do momento. O garoto usando óculos nerds sem lentes é chique; o garoto usando óculos nerds para corrigir problemas de visão será zombado. Sim, você pode vestir sua camiseta The Avengers, mas se falar da HQ, as pessoas vão te odiar. Você pode ver Lord of the Rings dúzias de vezes, mas se citar élfico, as pessoas vão te achar um otário. Você pode gostar de Neil deGrasse Tyson, mas se tiver um "nerdgasmo" sobre Física como o Tyson ocasionalmente tem, as pessoas vão te achar um bichinha.

Existe um limite do que é aceitável, e o limite é ser um fã genuíno. Se você gosta de nerdices porque as acha genuinamente interessantes, você é, foi, e sempre será considerado um perdedor. Quer provas? Leia os artigos de O'Malley.

Ele encerra com um:
Sempre que escrevo qualquer coisa sobre assuntos feministas ou crítica à cultura geek, eu encontro pessoas querendo saber por que ataco homens e/ou nerds. E a razão é simples: eu amo nerds, Eu amo a cultura geek. Eu quero vê-la crescer, florescere quero vê-la tornar-se uma maravilhosa força de criatividade e cultura e comunidade que eu sei que pode ser. E é porque eu a amo que eu tendo a ser tão duro com ela. Nós podemos ser tão melhores do que somos se apenas estivermos dispostos a reconhecer e abordar nossas próprias crenças e atitudes nojentas.

Vou largar o sarcasmo por um momento, para dizer que acho incrivelmente contraproducente dizer a alguém que tem sido repetidamente vítima de intimidação que é tudo coisa da sua cabeça e que ele de fato não é vítima. A antipatia é inteligível, dada a ideologia dirigindo esse argumento, mesmo assim não posso mensurar como alguém pode ser tão cego a ponto de não notar quão danosas e odiosas tais asserções são. Igualmente, falho em ver o valor de desgraçar nerds intimidados e silenciá-los usando o joguinho do "com mulheres é pior".

Eu noto que o artigo de O'Malley não é destinado a nerds ou geeks. Mesmo assim, alguns deles ainda o lerão, e eu espero que eles tenham auto-estima o suficiente para não permitir que esse tipo de culpabilização invectiva da vítima os faça pensar que são más pessoas por causa de seus interesses ou por falar de suas experiências negativas.

Eles não são.

META
Título Original Nerds and Feminism: Feminists Behaving Badly
Autor ToySoldier
Link Original https://toysoldier.wordpress.com/2015/01/12/nerds-and-feminism-feminists-behaving-badly/
Link Arquivado http://archive.today/XYLI0

domingo, 6 de novembro de 2016

"Não, Game of Thrones Não É Um Triunfo Para Feministas" por ToySoldier

Não, Game of Thrones Não É Um Triunfo Para Feministas

No ano passado, feministas perderam a cabeça com Game of Thrones. Elas declararam o espetáculo como "sexista" porque algumas vezes mulheres eram vítimas de coisas ruins, particularmente estupro. Esqueça que a história é essencialmente uma versão fantástica da Guerra das Rosas entre os Lancaster e os York. Esqueça que ela está ambientada num mundo medieval e portanto mantém as regras e normas sociais que se aplicavam na Europa medieval. Não, feministas esperam que as coisas sejam bem diferentes porque elas querem "se sentir empoderadas".

É claro, feministas ignoram totalmente as montanhas de violência e crueldade cometidas contra homens no espetáculo, incluindo o primeiro episódio em que um garotinho é empurrado de uma janela e fica paraplégico. Feministas não ficaram nem um pouco ultrajadas pelo assassinato de dezenas de crianças que tiveram o azar de serem bastardos de Robert Baratheon. Elas não se preocuparam com a criação de Jon Snow. Elas pareciam regozijar-se na tortura e mutilação de Theon Greyjoy.

A sexta temporada, porém, apresentou uma mudança no tom do espetáculo. Esta temporada passada mostrou mulheres ascendendo ao poder. Tuido bem, não foram as ascensões mais elegantes, igualitárias. Apenas uma das mulheres agiu com honra ou valor. Todos os outros agiram por vingança ou direito adquirido, ou aquilo que as feministas chamam de "empoderamento". Por causa do foco nessas mulheres, agora as feministas apoiam o espetáculo. Elas também agora declaram-no uma "fábula secreta feminista":
Sexta temporada de Game of Thrones tem tido mais frenesi entre feministas que o apoio à corrida eleitoral de Hillary Clinton. Certamente, mulheres de Game of Thrones são feralmente bonitas (com dentes suspeitamente muito bons para tempos pseudo-medievais) e frequentemente estão peladas, mas me acompanhe. Na série, houve uma relativa escassez de prostitutas decorativas, uma série de momentos edificantes e personagens femininos mais fortes e diferenciadas do que você poderia brandir uma espada de aço valiriano. George RR Martin há muito declarou-se feminista: eis aqui seis razões pelas quais a última temporada da adaptação de seus livros pela HBO faz jus a esta declaração.


A série sempre teve personagens femininas fortes, matizadas. Isto estava óbvio desde o primeiro episódio. Parece, porém, que as feministas não repararam nisso porque estavam focadas demais nas putas de Tyrion Lannister. Sim, tem um monte de mulher em carne nua nas primeiras temporadas. Também tem um montante gratuito de violência, a maioria contra homens e garotos. Ainda assim apenas uma coisa aborreceu as feministas. As numerosas brutalizações e assassinatos de garotos empalideceram-se em comparação com a visão de Theon tendo sexo com uma prostituta nua.

Ceri Radford, bem como muitas feministas, parece esquecer que enquanto estas cenas aconteciam nós víamos personagens como Cersei, Margaery e Olenna fazendo esquemas e tramas numa estrutura social que geralmente as manteve fora do poder direto. Acusar os escritores do espetáculo de sexismo contra mulheres seria semelhante a acusar a NBA de ser racista contra os negros.

Radford tenta recapitular as reclamações feministas sobre GoT ser um lixo completo em razão da misoginia alegando que ele é de fato uma obra feminista. Você pode prever que seus argumentos serão fracos quando ela começa com um dos "testes" feministas mais falhos disponíveis:


Você quer dizer o rígido teste no qual filmes como Homens de Preto falham enquanto filmes como Transformers e séries de TV como Sex in the City passam?

Vamos ler a defesa por Radford de seu inútil "teste":
O teste definitivo para sexismo em tela pergunta se há pelo menos duas mulheres que conversam uma com a outra sobre alguma coisa que não seja homem. Hum, fácil. Uma das melhores cenas de GoT até aqui está no sétimo episódipo da temporada, onde Cersei Lannister (Lena Headey) instiga Olenna Tyrell (Diana Rigg) a se unirem contra os assustadores fundamentalistas que parecem terem sido marcados com biscoitos Wagon Wheel, e Olenna olhou nela e perguntou se ela era a pior pessoa que já havia encontrado.

Você tem um trabalho a fazer: encontrar uma cena onde Olenna e Cersei falam uma com a outra, e ainda assim você escolhe uma cena que tecnicamente falha no teste porque elas estão falando de um homem, o High Sparrow, ao longo de toda a discussão. Você tem quatro temporadas valiosas de conversações para escolher e ainda pega essa?
Em qualquer drama normal, um desses personagens seria um grande favor: Cersei, malevolente, magnética e estranhamente simpática; e Olenna, robusta e hilária.

É curioso que Radford, assim como muitas outras feministas, ache Cersei simpática. Eu notei isso anteriormente nos comentários após o espetáculo. Eu suspeito que seja assim porque Cersei é a personagem mais feminista do espetáculo e da série. Suas motivações são desejo por poder, derrubar (overturning) o sistema para que ela possa ascender, declarando o sistema "errado" porque ela é quem deveria mandar, e um enorme senso de direito adquirido para posições de poder que ela jamais mereceu.

O fato de Cersei fazer sexo com seu irmão, ordenar a morte de crianças, brutalmente assassinar qualquer um que atravesse seu caminho, e causou a morte de um de seus filhos - isso não importa. Tudo que importa é que ela fez o seu caminho.

Feminista pra caramba.

2 - Mulheres são guerreiras, e não meras princesas esperando ser salvas

O cavaleiro em armadura brilhante da temporada seis é sem dúvida Brienne de Tarth (Gwendoline Christie), cuja entrada com brandir de espada para resgatar Sansa (Sophie Turner) na abertura é o fio-condutor do feminismo de GoT. Mais interessantemente, ela não se encaixa bem na fantasia usual de uma bela esguia mal-colocada em uma roupa de couro (pense em Xena a Princesa Guerreira, Tomb Raider e, admitamos, Daenerys).

A maioria das mulheres no espetáculo está esperando para ser salva. Um punhado de mulheres age diferente, e mesmo assim isto deve-se primariamente pela natureza das circunstâncias. É digno de nota que a mesma coisa aplique-se aos personagens masculinos. Tommen é um bom exemplo de um personagem inútil e fraco. Isto é primariamente devido a ele ser o mais jovem e portanto inútil no grande esquema do reino.

A questão não é se há mulheres guerreiras. A questão é se tais personagens são interessantes. Brienne é interessante por causa de como ela lida com sua situação. Ela é montada como homem, então a maioria dos homens não quer muita coisa com ela. Ela se apaixona por um homem que gosta de outros homens e depois por um homem desprezado pela maioria dos outros homens. Ela presta sua lealdade a uma mulher que foi assassinada, e ainda cumpre seu dever, ao ponto de pôr em perigo o homem que agora ama.

Este é um personagem interessante. O fato de ela manejar uma espada e vestir armadura não tem importância.

Claro, isso não seria um artigo feminista se não tivesse uma imediata contradição de um ponto anterior. Vós vimos Radford argumentando que mulheres podem ser guerreiras. Agora ela argumenta:

3 - Mas elas não precisam agir como homens para serem poderosas

Um dos debates do feminismo contemporâneo é até que extensão se espera que mulheres macaqueiem homens - superando o golfe, zombando o PowerPoint do rival - para seguir em frente. Enquanto personagens como Brienne e Arya agem num estilo convencionalmente masculino e até a Daenerys das madeixas prateadas tenha uma contumaz inclinação por crucifixão, esta não não é a única forma de se manipular o poder. Catelyn Stark incorporou uma contundência mais tradicionalmente feminina na primeira temporada, e desta vez, ninguém se aproxima de Margaery, uma personagem com a astúcia de um mercenário e o sorriso da Princesa Diana. Ela usa toda ferramenta disponível para despistar o High Sparrow, incluindo uma greve de sexo. "Poder é poder", como Cersei tão memoravelmente disse uma vez a Lord Baelish (Aidan Gillen). No universo amoral de GoT, poder é qualquer coisa que funcione, e não tem automaticamente um gênero.

Novamente, você tem um trabalho: pegar uma cena em que uma mulher usou força não-física para provar que tem poder, e você pega uma cena em que Cersei usa guardas armados para ameaçar fisicamente Littlefinger.

Quanto ao ponto que ela faz, isto é o que a maioria dos homens faz ao longo de toda a série. Tywin, Tyrion, Littlefinger, Varys, e até Ramsay Bolton, todos eles usam conversas e manipulação para demonstrar seu poder. Ignorar isso e fingir que é algo único de mulheres é risível.

O que piora o ponto de Radford é que este exato comportamento é historicamente método mais comum que mulheres usavam (e ainda usam) para manobrar o poder. Então, isso não é muito feminista.

4 - Ela confronta a feiúra da violência sexual

Um dos momentos mais fascinantes da série é quando Sansa conta a Lord Baelish, o pior planejador de casamentos do mundo, que tinha gostado de ser violentada pelo Sádico-Mor Ramsay Bolton (Iwan Rheon). Não é esperado que damas falem tais coisas; mas ela ainda sentia a dor, "não em meu tenro coração, eu posso ainda sentir o que ele fez em meu corpo, firme aqui e agora".

Uma cena que tangencia o tópico não é "confrontar a feiúra da violência sexual". Nada acontece como resultado dessa cena. baelish não é punido, Sansa não o evita, e Ramsay não encara seu castigo até um tempo depois.
A transição de Sansa de peão a potência, capaz de articular e desafiar os duplos padrões sexuais de seu tempo, é um percurso bastante agradável. De uma maneira sombria, reconhecidamente, dado que isto é GoT, então em vez de seguir em frente com alguma terapia e uma caminhada de feriado em Lake District, ela teve seu atormentador comido vivo pelos seus próprios cães salivantes.

Sansa é uma potência da mesma forma que Bran Stark é um velocista. Ela ainda é uma princesinha inútil esperando que qualquer outra pessoa a salve. A única diferença é que agora ela nota quão estúpida e inútil isso a torna. Ainda assim ela faz quase nada para resolver situações. A exceção é durante a batalha para retomar Winterfell. Claro, ela falha em dizer a Jon Snow que tem o exército de Littlefinger à sua disposição. Em vez disso, ela deixa que seu "irmão" vá numa batalha sem esperanças na qual ele quase morre (de novo), só para atacar no último momento com as forças de Baelish. Ela teria ajudado se tivesse falado do exército para Jon desde o início.
Ao longo de Essos, Daenerys (Emilia Clarke) obteve a vingança definitiva após sofrer as ameaças de estupro dos khals de Dothraki: incendiando o posto deles e emergindo nua e vitoriosa das chamas. Não é uma opção disponível para a maioria das mulheres passando por um lugara de construção, mas gratificante não obstante.

Em um espetáculo onde a morte masculina é tratada com satisfação casual, apenas feministas precisariam que os homens fossem potenciais estupradores a fim de a cena verdadeiramente satisfazê-las.
5 - E isso nos dá a cena entre Daenerys Targareon e Yara Greyjoy

Você quer dizer a cena em que duas mulheres que aniquilaram em seu caminho para o poder e não têm o menor interesse na vida de mais ninguém falando como elas vão devastar um continente, aniquilando dezenas de milhares de homens e meninos, para tomar o Trono de Ferro? Aquela cena "empoderadora"?
Como não saltar do sofá com uma leve satisfação ao ver a louca dura nascida-do-ferro Yara (Gemma Whelan) conquistando a imperiosa Daenerys, fazendo uma causa comum enquanto filhas de homens terríveis em um mundo onde a maioria das pessoas não quer mulheres no comando.

Mais uma vez, estas não são as melhores mulheres para se escolher. Yara invade e estupra em seu caminho pelas vilas costeiras. Ela tem tão pouca preocupação pelo tormento que seu irmão Theon sofreu que ela o leva em um bordel, zomba dele por não mais ter um pênis, e então lhe diz para matar a si mesmo se não consegue superar os anos de tortura que sofreu.

Daenerys é muito pior. Ela tem compaixão por escravos primariamente via projeção. Ela não tem compaixão por mais nada ou ninguém, nenhum entendimento de como conquistar pessoas, nenhuma preocupação com se os senhores de escravos são gentis ou cruéis com seus escravos, e nenhuma preocupação com o bem-estar do povo livre vivendo nas cidades que conquista.

Dani conquistaria a cidade, libertaria os escravos, atacaria seus antigos senhores, e iria embora. É só em Meereen que isto muda, e somente porque os mestres destruíram todos os seus navios, impedindo que Dani fosse até Westeros. E ainda assim, o que ela faz enquanto está em Meereen? Ela tenta estabilizar a cidade? Sim, mas apenas para impedir os mestres de matá-la. Afora isso, sua intenção é ir embora.

Daenerys revira uma sociedade inteira sem nenhuma intenção de consertá-la. Seu único objetivo é conquistar Westeros e tomar o Trono de Ferro. Então quando ela consegue os navios para partir, ela os pinta com emblemas de dragões e zarpa, deixando seu brinquedinho no comando.

Nenhuma dessas mulheres são do tipo que você iria querer no poder.
Mas por todo o fator de se sentir bem, a sala do Trono de Ferro ainda tem um teto de vidro Vamos parar um momento aqui para lembrar o que Yara estava fazendo em uma distante Meereen em primeiro lugar. Se você fosse uma nascida-do-ferro, você obviamente a teria apoiado como rainha. Ela é testada na batalha, leal o suficiente para ficar com o pobre Theon (Alfie Allen, não é totalmente psicopata, em resumo tudo que um grosseiro amante de algas esperaria. Mas quando veio o tempo, junto a um jactante Euron Greyjoy (Pilou Asbæk), e uma piada de pênis, ele foi pronunciado rei.

Isto é provavelmente porque Euron os convenceu que poderiam conquistar Daenerys e trazê-la e a seus dragões para Westeros, conquistar a terra, e ele sentaria no Trono de Ferro. Ele plaanejava cortejar Dani trazendo-lhe seus navios. Yara rouba seu plano e ela mesma apresenta a Dani, até mesmo sugerindo que ela seja o "marido" de Dani.
Numa via similar, Sansa teve outro momento de sermão feminista quando ela censurou Jon Snow (Kit Harington) por não érguntar sua opinião sobre como derrotar Ramsay Bolton, ainda que ela fosse a única que soubesse qualquer coisa sobre a mente doentia do mais petulante psicopata da TV.

Que importante informação ela deu a Jon? Esta não é uma pergunta retórica. Olhe para a cena e tente achar qualquer coisa que ela tenha dito a Jon que ele já não soubesse. Mesmo a nota sobre Rickon ser um morto andante era algo que Jon já sabia. Ele apenas não queria aceitar.

Sansa tinha uma peça importante de informação: Peter Baelish tinha um exército a postos e só precisava de sua ordem para levar aqueles homens ao campo de batalha. Não é um "teto de vidro"; é Sansa agindo como seu ego petulante e interesse pessoal.
Em tempos sexistas, até mesmo o mais branco dos Jon Snows, o mais puro dos heróis, era sexista. É um sistema de pensamento que captura os melhores homens - e as melhores mulheres. Apesar do vasto ambiente e os dragões e os zumbis de gelo com olhos laser, isso é um tema que traz os Sete Reinos desconfortavelmente próximos de casa.

Radford, como muitas feministas, continua olvidando que esta é uma história fantástica medieval. A história deve funcionar nos confins de tal ambientação. Neste caso, mulheres geralmente não estavam em posições de poder. Elas não eram tratadas como iguais aos homens. Elas não eram usualmente guerreiros e nem era esperado que elas lutassem afinal. Podemos achar isto sexista o quanto quisermos, porém era assim que as coisas aconteciam na Europa medieval. Se quisermos contar uma história nesse ambiente, devemos nos ater a tais regras.

Se Radford quer algo diferente, ela pode ler um outro livro ou ver um outro espetáculo. Feministas não têm que se engajar em coisas populares se não quiserem. Porém, elas não vão ditar aos escritores que histórias eles podem contar ou como contá-las. Eles também não vão cooptar um espetáculo e alegar que ele é sobre suas políticas de gênero quando o dito espetáculo é sobre tudo menos sobre feminismo.

META
Título Original No, Game of Thrones is not a triumph for feminists
Autor Toy Soldier
Link Original http://toysoldier.wordpress.com/2016/06/28/no-game-of-thrones-is-not-a-triumph-for-feminists/
Link Arquivado https://archive.today/TPgZY

sábado, 5 de novembro de 2016

"Não, feministos não podem ter um diálogo útil com ativistas pelos direitos dos homens e meninos" por ToySoldier

Não, feministos não podem ter um diálogo útil com ativistas pelos direitos dos homens e meninos


Não. Não se pode ter um diálogo aberto se apenas um dos lados fala. Este é o problema fundamental em qualquer diálogo entre feministas e ativistas pelos direitos dos homens. Ambos os lados discordam entre si, mas apenas um lado está disposto a ouvir o que o outro diz. Já o outro requer que suas visões sejam aceitas sem questionamentos. Qualquer dissidência, não importa o quão minúscula ou o quão justificada, é tratada como teimosia, mente fechada e sexismo. Isto é particularmente verdadeiro para muitos feministos. Eles tendem a levar mais a sério os ideais e teorias feministas em comparação às mulheres feministas, muitas vezes por uma necessidade de provar que não estão sendo falsos no seu apoio. O resultado é que eles são muito menos propícios que suas contrapartes femininas a aceitar quaisquer posições não-feministas, em especial qualquer posição pelos direitos dos homens.

Thomson demonstra o problema inerente com o diálogo entre os dois campos no começo de seu artigo:

Como homens podem ajudar?

Olhando para a questão, sua reação visceral pode ser que devemos estar além do ponto em que esta é uma linha válida de investigação. Deixe que eles notem. Deixe que eles sejam aliados. Ou melhor, um quinta-coluna [NT1]. Faça o que pessoas de senso comum já dizem. De toda forma, se um homem quer ser desperto, ele pode fazer o trabalho sujo. Temos internet para isso.

Como alguém pode ter um diálogo aberto se a sua posição é de que ele não tenha que explicar as próprias visões? Como isso funciona? Por que alguém interessado na sua ideologia deveria fazer o "serviço sujo" de se educar sobre as suas visões? Estas são suas visões. Quem melhor para explicá-las que você?

Como de praxe entre feministos, Thomson oferece a típica contenção feminista:
Tende a ser concordado, porém, que a melhor direção na qual homens feministas podem dirigir suas energias é para si mesmos e para outros homens. Eles podem localizar e neutralizar sua própria misoginia, advogar por mudança em seus locais de trabalho, apontar sexismo onde o virem - fazer uma miríade de coisas que mulheres tem que fazer por padrão.

Auto-antipatia não é um bom ponto de se iniciar uma conversação, quanto mais uma conversão. E também não é um bom ponto demandar submissão a esta auto-antipatia. A pessoa já vê como esta atitude impediria qualquer diálogo entre feministos e ativistas pelos direitos dos homens. Aqueles de plano veem homens como inerentemente maligos, enquanto estes não.

Claro, isso piora muito quado lidando com homens. Thomson nota que homens são mais propensos a ouvir outros homens:
E nisto homens têm uma irônica vantagem desfortunada: outris homens são mais propensos a seguir o alerta e exemplo de homens que mulheres, incluindo quando se trata de vulnerabilidade emocional, reformas progressivas do local de trabalho, e por aí vai.

Que horroroso. Deve fazer mais sentido para homens ouvir aqueles que não compartilham de suas experiências do que aqueles que compartilham.

Escavações em homens como esse acima não fomentam diálogo. Apenas colocam pessoas na defensiva. Elas demonstram um vício inerente do falante em direção a qualquer ideia que não conforme sua visão de mundo. Thomson mostra isso em sua resposta a um artigo submetido ao seu website. O artigo continha frases como "lute para acabar com a violência contra as mulheres" e "genuína masculinidade".

Como qualquer pessoa objetiva, Thomson leu o artigo, viu que discordava, e mesmo assim decidiu publicá-lo dado que era um aspecto da posição de algum homem sobre a masculinidade.

Na realidade ele fez o oposto:

Huh, pensei, um ativista pelos direitos dos homens.

Por um momento eu fiquei orgulhoso. Homer foi [um site] projetado para atingir homens assim. A submissão, porém, tinha uma misoginia calculada, endurecida, então polidamente eu a rejeitei.

E adorei a resposta do autor: "Seu ódio e discurso preconceituoso e sexista são repugnantes".

Tive um segundo de arrependimento. Me arrependi de não ter tentado me ocupar dele. Se eu tivesse apenas abordado, o que poderia ter acontecido?

Além de um argumento comprido? Nada.

O fato de a reação imediata de Thompson ter sido rejeitar o artigo, o que a julgar pelo sei tom provavelmente foi feito em um tom sarcástico e nada polido, é que é o problema. Eu não concordo com as visões de Thomson, mesmo assim é importante permitir que ele expresse-as como elas são e então discuti-las. Ao recusar-se a publicar o artigo e então declará-lo sexista, ainda que ninguém além de Thomnpson e do autor saberem o conteúdo do artigo, Thomson cria uma atmosfera de desconfiança.

Por um lado, ele dá mais munição para o viés de confirmação das outras feministas ao implicar que ativistas pelos direitos dos homens aportam alguma "misoginia calculada, endurecida". Por outro lado, ele dá mais munição às suposições dos ativistas dos direitos dos homens de que feministas simplesmente odeiam homens e são incapazes de lidar com críticas. Nenhum diálogo pode surgir desse tipo de disposição mental.

A recente liberação do documentário A Pílula Vermelha causou o desejo por diálogo em Thomson:

A Pílula Vermelha vende a si mesmo como uma incursão intrépida porém imparcial de uma autoproclamada feminista, Cassie Jaye, no mundo do ativismo pelos direitos dos homens, onde homens lutam por trazer atenção às formas que a sociedade desprivilegia homens - mais que as mulheres, de acordo com o que eles dizem.

O apelo é que talvez - talvez - exista alguma base comum aqui, ou apenas desentendimentos que poderiam ser resolvidos, se apenas ouvíssemos um ao outro.

Apesar de protestos contra as filmagens terem encontrtado oposição de algumas feministas, a idea que o diálogo que o filme habilita é útil é difícil de ser defendida.

Thompson nunca justifica esta alegação, e novamente, alegações como essa interrompem qualquer diálogo logo de cara. Novamente é uma admissão que Thomson não está disposto a desafiar suas próprias visões sobre sociedade e questões dos homens. É irônico porque é precisamente a mesma situação que a diretora do filme, Cassie Jaye, se encontrou. Enquanto ela entrevistava ativistas pelos direitos dos homens, ela dobrava a aposta em suas posições feministas. Críticas às posições profundamente enraizadas de uma pessoa podem ter esse efeito. Isto não quer dizer, porém, que elas não devam ser desafiadas.

Igualmente, não quer dizer que as visões de alguém são as únicas que devem ser consideradas. Thomson rejeita completamente a visão que David Williams, fundador do Men’s Rights Melbourne, apresenta. Williams argumenta que a sociedade abriga uma negatividade injusta contra os homens. Thomson repudia isso sem a menor consideração, afirmando mais sobre o movimento pelos direitos dos homens:
As crenças dos ADH procedem da ideia que a sociedade agora percebe os homens meramente como pessoas que usam, subjugam e abusam das mulheres, e que este é um erro das feministas. ADHs não contam que, entre feministas, novas escolas de pensamento estão selecionando masculinidades e experiências masculinas à taxa de nós.

Não, não estão. Espaços masculinos voltados ao feminismo meramente revendem as mesmas teorias feministas de uma maneira autoproclamada "amigável aos homens". Eles não examinam se a teoria em si é enviesada ou sem valor. Em vez disso, aplicam-na aos problemas dos homens sem examinar a natureza dos problemas em seusn próprios méritos. Como Thomson demonstra:
É aí que entra um site como Homer. Ele pode ser capaz de chegar aos homens de formas que mulheres geralmente não podem (ou não deveriam ter que). Para isso funcionar, ele requer que tais homens devotados a "genuínas" masculinidades encontrem um lugar na conversação, implicando que precisamos evitar tanto a alienação deles quanto a validação das suas crenças retrógradas.

Quem decide que crenças são "retrógradas"? Quem decide que masculinidade é "genuína"? Como ter uma conversação genuína com alguém quando sua atitude em direção a outrem é esta:
Mesmo homens feministas, porém, deveriam ir apenas até este ponto. ADH fazem alegações que respeitam mulheres, que eles apenas desejam um lugar para homens e meninos em discursos de gênero. Eles têm a responsabilidade de provar isso - mostrar solidariedade quando feministas advogam (como é comum) pela melhoria do bem-estar de homens e meninos. Muito frequentemente o discurso não passa de mero abuso.

Antes que ativistas pelos direitos dos homens virem a esquina para disprovar o espantalho acima, talvez Thomson e outros feministas devam primeiramente provar que feministas engajam-se em qualquer ativismo que realmente melhore o bem-estar de homens e meninos. Corriqueiramente o discurso das feministas não passa de mero abuso, indo de noções a "ensine os homens a não estuprar" até enfiar a ideia que homens vítimas de estupro beneficiam-se e causam seu próprio abuso via "cultura do estupro".

O documentário de Jaye é um exemplo perfeito de como feministas reagem a qualquer discussão sobre questões dos homens. Ao longo d processo de filmagem, feministas opuseram-se ao esforços de Jaye. No filme, ela mostra feministas menosprezando a violência doméstica contra homens. Isto acontece de impulso. Jaye não induz ninguém a dizer coisas ou atacar esforços para ajudar homens atacados. Feministas fazem isso por si só.

São estas as pessoas com quem os ativistas dos direitos dos homens devem ter um diálogo aberto? Pessoas que os veem como estupradores, racistas, homofóbicos, misóginos que mentem sobre os problemas dos homens? Por que qualquer ativista dos direitos dos homens iria querer falar com feministas se esta é a atitude que eles terão que enfrentar?

Da mesma forma, por que eles iriam trabalhar com feministas quando este é o objetivo feminista desejado:
Mesmo assim muitas das objeções que os homens têm sobre seu papel na sociedade são abordadas mediante feminismo. Homens como um grupo podem perder poder enquanto mulheres ganham igualdade, mas também ganhamos liberdade - e há poder nisso também.

Se o objetivo do feminismo é desempoderar homens e ativistas dos direitos dos homens acreditam que homens já estão desempoderados, por que ativistas dos direitos dos homens seguiriam esse plano dado que ele apenas os desempoderaria ainda mais, em sua visão?

Isto é o que acontece quando uma pessoa não está realmente interessada em um diálogo e apenas quer que os outros calem-se e ouçam-no falar. Thomson admite isso em sua conclusão.
Quando se trata de abrir uma conversa difícil, porém, alguém sempre tem que começar. Eu estou tentando - e gostaria de convidar homens que se identificam como feministas - e ADHs também - a juntar-se, respeitosamente.

Não, Thomson não está tentando, nem quer que ativistas dos direitos dos homens juntem-se, respeitosamente ou não. O que ele quer é completa concordância, e se ele não puder ter isso, então ele vai querer absolutamente nenhuma crítica ao feminismo. O que Thomson quer em seu site é o que já ocorre em espaços masculinos inclinados ao feminismo: silenciamento de objeções.

Claro, isso acaba silenciando a maioria dos homens não-feministas, que são ironicamente os homens que feministas alegam querer alcançar. Isto também bloqueia qualquer análise crítica sobre as visões feministas sendo vendidas em tais espaços. Nas raras circunstâncias em que as críticas não sejam eliminadas ou severamente moderadas, geralmente elas são silenciadas pelo travamento de comentários ou pelo emprego de numerosos alertas a fim de impedir qualquer um de fuçar furos demais em um modelo já frágil.

Nenhum "diálogo" pode acontecer em tais espaços. Em vez disso, o melhor que se tem são clichês e um monte de elogios mútuos entre feministas. Um diálogo verdadeiramente aberto significaria permitir os artigos "misóginos" e discutir as opiniões presentes neles. Como um grupo, homens podem decidir os méritos de tais ideias, se são válidas ou se são preconceituosas, e se eles abordam os assuntos dos homens coletivamente ou se não passa de outra venda ideológica.

Isto não pode acontecer, porém, quando se começa da posição que o feminismo está correto e o ativismo pelos direitos dos homens está errado "porque sim".


FootNotes
  • NT1: Quinta-coluna: no artigo original, turncoat, que pode ser traduzido por 'vira-casaca, renegado, infiltrado, traidor'.
META
Título Original No, feminist men can’t have a useful dialogue with men’s rights activists
Autor ToySoldier
Link Original https://toysoldier.wordpress.com/2016/11/02/no-feminist-men-cant-have-a-useful-dialogue-with-mens-rights-activists/
Link Arquivado http://archive.today/RXJdq

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"Quando a Proxenetagem Não Funciona" por ToySoldier

Quando a Proxenetagem Não Funciona

Por alguma razão, Marvel Comics deixou o escritor Brian Michael Bendis remover o Stark como Homem de Ferro. Isto é um movimento bem estranho, considerando o esforço que Marvel e Disney puseram para fazer dele o nome da casa. Ele é de certo o mais conhecido e popular Vingador depois do Capitão América, em particular devido a seus filmes. Tirar o Stark do Homem de Ferro faz taanto sentido quanto tirar o martelo e o nome do Thor.

Tudo bem, isso já aconteceu, então por que não com o Homem de Ferro?

O plano de Bendis é simples: em Guerra Civil II (na linha das revistas, não do filme), Stark se desfará do manto do Homem de Ferro. Ele será substituído por Riri Williams, uma garota negra de 15 anos que Bendis descreve como:
Seu cérebro é um pouco melhor que isso. Ela olha para coisas de uma perspectiva diferente, o que faz sua armadura ser única. Ele tem que ir atrás dela.

Bendis explica sua lógica na criação da personagem para a Time:

Uma das coisas que me paralisaram quando eu estava trabalhando em Chicago há uns dois anos atrás num programa de TV que acabou não indo ao ar foi o montante de caos e violência. E esta história desta brilhante e jovem mulher cuja vida foi deteriorada pela tragédia que poderia facilmente ter acabado com sua vida -- mera violência aleatória de rua -- e saiu da faculdade foi bastante inspiradora para mim. Eu pensei que seria a versão mais moderna de super-herói ou super-heroína que já tinha ouvido. E eu sentei com essa ideia por um tempo até que tive o personagem certo e o lugar certo.

Enquanto estamos lenta e esperançosamente adicionando todos esses novos personagens no Universo Marvel, parecia que esse tipo de violência inspirando um jovem herói a levantar-se e agir, e usar sua perspicácia científica, suas habilidades naturais que estão ainda brutas mas tão além do que até mesmo Tony Stark tinha naquela idade, foi bastante excitante para mim.

Bendis cita Miles Morales, Kamala Khan, e a Thor feminista no artigo. Nós poderíamos acrescentar a isso Sam Wilson tornando-se Capitão América. Com exceção de Khan, nenhum desses personagens foi adicionado "organicamente". Todos eles ganharam seus mantos substituindo personagens que ou foram mortos ou tiveram seus mantos tirados. No caso de Thor, ele não apenas perdeu seu poder, mas também seu nome.

Em cada instância, estes personagens foram criados para preencher um progressivo desejo por "diversidade" e "representação". Não havia fãs clamando por um Homem Aranha ou um Capitão América negros ou um Thor feminista ou uma Ms. Marvel muçulmana. Havia coisas paras apelar para uma audiência que não compra revistas. Bendis amite isso no artigo para a Time:
Eu penso que o mais importante é que o personagem seja criado em um ambiente orgânico. Nós nunca tivemos uma reunião dizendo "Precisamos criar esse personagem". Isto é inspirado pelo mundo à minha volta e não sendo representado o suficiente na cultura popular.

Novamente, isto não é orgânico. É deliberadamente defecar na continuidade para o fim de proxenetar com a esquerda progressiva. A ironia é que os números geralmente não apoiam a jogada como uma decisão inteligente de negócio.

Por exemplo, Marvel moveu Miles Morales do universo Ultimate para o principal da Marvel em um esforço de tornar o personagem mais popular. Enquanto Morales tem uma base de fãs seguidores, este personagem jamais atingiu o nível de sucesso que a Marvel esperou, o que parece solapar Peter Parker. Apesar de todos os seus esforços, Marvel não pode fazer as pessoas parar de comprar revistas do Peter Parker. Spider-Man, a revista que exibe Morales, vendeu 49.167 unidades em maio. Amazing Spider-Man, que tem Parker, vendeu 74.963.

Outro exemplo são as revistas de temática feminista, como Ms. Marvel, A-Force (um time 100% feminino de Vingadores), Silk, Spider-woman, Captain Marvel, e Spider-Gwen. Eis a lista:
  • Spider-Gwen - 49.681 unidades
  • Silk - 30.884 unidades
  • Ms. Marvel - 29.840 unidades
  • A-Force - 29.706 unidades
  • Spider-woman - 27.118 unidades
  • Captain Marvel - 23.812 unidades

Nada disso parece ruim até ser posto em perspectiva. Scooby Apocalypse #1, um livro no qual a Turma do Scooby tem que lidar com as consequências de um fim do mundo, estreou em 69.520 unidades. Até mesmo Batman Teenage Mutant Ninja Turtles #6 superou todos esses títulos com 64.911 unidades.

Para este ponto, a Marvel fez uma grande proposta com a nova revista do Black Panther escrita por Ta-Nehisi Coates. A primeira edição saiu com 253.259 unidades e foi a mais vendida em abril de 2016. Em maio, a segunda edição saiu em nono lugar com 77.654 unidades. Isto é uma queda de audiência de 70% em um mês.

Porém, este não é o único problema de proxenetar a esquerda progressiva. O problema mais urgente é sua resposta, a saber, que mesmo quando os escritores fazem o que os progressistas demandam, isto ainda não é bom o suficiente. Esta foi a resposta à adição por parte da Riri Williams como o novo Iron Man:

"Alguns dos comentários online, eu nunca pensei que as pessoas sequer notassem o quão racistas eles soam", disse Bendis à Time no artigo revelando o filme, referindo-se aos ataques passados sobre a Marvel por substituir personagens tradicionalmente brancos por não-brancos. "Tudo que posso fazer é afirmar meu caso pelo personagem, e talvez eles notarão que com o tempo que este não é o pensamento mais progressista". Ironicamente, o pensamento progressista é o que tem sido combustível da mais apontada repercussão das notícias. A nova Iron Person foi emblemático dos esforços da Marvel de tornar-se representativa dos grupos marginalizados, porém ela também motiva uma questão difícil: como o progresso realmente se parece na ficção super-heroica?

Os comentários de geeks no Twitter rápida e coletivamente chegaram a duas afirmações incriminadoras sobre Riri. Primeiro, esta personagem feminina negra foi criada e será escrita por um homem branco. O contraste irritou alguns em nível interpretativo: "Você não pode chamar todas essas histórias diversas sem vozes diversas", tweetou Carly Lane. Outros olharam para o problema de um ponto de vista financeiro: um blogueiro pseudônimo theblerdgurl disse "estou feliz em ver uma garota parecida comigo como líder numa revista #Marvel. Eu apenas desejo que alguém parecida comigo pudesse lucrar com isso"

Leia de novo o parágrafo. Sua reclamação é que a criação do personagem que eles alegaram querer é ruim porque a pessoa que o criou não era mulher ou negro.

Lembre-se, Brian Michael Bendis é a mesma pessoa que criou Miles Morales, e ele está repetidamente levando a Marvel a incluir personagens mais "diversos" em seu mundo, resultando em personagens clássicos sendo revisados, destituídos de seus poderes, tendo seu manto e nome tirados, ou mortos em razão de serem homens bancos héteros. Ele fez tudo que eles alegaram querer, mas agora ele é ruim porque não é uma mulher negra.]

O argumento prossegue:
Esta linha pecuniária de crítica leva a uma segunda afirmação mais alarmante: não apenas este personagem mulher negra não foi escrito por uma mulher negra, a Marvel não tem escritoras negras. De fato, especialistas têm dificuldades para apontar uma simples mulher negra que já tenha escrito alguma revista da Marvel ao longo dos 77 anos de história da companhia. "Ainda não consigo lembrar de uma irmã que tenha escrito para a Marvel", tweetou a colunista Joseph P. Illidge. O podcaster Al Kennedy tweetou: "Quiz para historiadores dos quadrinhos de super-heróis: alguma mulher negra já escreveu alguma série contínua para a Marvel?", e quando ninguém foi capaz de citar alguma, ele prosseguiu dizendo "Nossa. Sinta-se um total imbecil por não pegar essa até agora. Fácil estar num casulo como homem branco"

Enquanto não é surpreendente que nenhuma escritora negra tenha trabalhado para a Marvel (e eu não conferi, logo não estou certo se é verdade), isto não é problema. A Marvel já mostrou numerosas histórias bem-escritas e cativantes com personagens e temas diversificados sem uma escritora negra. Não que isso signifique que eles não devem contratar negras, apenas que isso não prejudicou a companhia de forma alguma.

Pois bem, essa sanha por "diversidade" nunca foi sobre escrever histórias interessantes ou criar dramas convincentes. É sobre proxenetagem, sobre jogar com alegorias e zunidos ideológicos específicos a fim de ter a resposta pavloviana apropriada dos progressistas. É por isso que o artigo prossegue numa linha bastante bizarra de raciocínio:

De fato. Na maior parte da história da ficção super-heroica, o gênero viveu nesse casulo - homens bancos pagando outros homens brancos para escrever histórias dirigidas a homens brancos. Como tal, os mais importantes personagens são, eles mesmos, homens brancos: Batman, Superman, Cap. América, Homem-Aranha, entre outros. Isto, claro, não é único às HQs; é válido em todo o entretenimento. Mas nos últimos anos, quadrinhos de super-heróis têm mudado para algo mais multifacetado e representativo, e eles têm feito isso de uma forma que filmes e a TV não podem fazer.

Marvel tem tomado a dianteira neste fronte, usando uma tática fascinante para obter a atenção para suas demandas de diversidade. Em vez de tentar vender para os leitores novos personagens que não são lírios-brancos, eles simplesmente remodelaram sua propriedade intelectual. Há uma longa tradição de pessoas diferentes tomando as alcunhas de super-heróis existentes depois de sua morte ou aposentadoria, então por que não usar esta metáfora de forma que avance o invólucro da política de identidade? Você não vai obter muita atenção na mídia mainstream lançando a ideia de uma garota negra usando roupa de robô. Mas se você disser que ela é o Iron Man - um nome familiar a qualquer um que comprou ingressos de cinema nos últimos oito anos - de repente você ganha uma manchete na Time.

Não poderíamos encontrar uma melhor confissão do que realmente se tratam as "mudanças de diversidade". Não é sobre as narrativas, mas sobre impor políticas. Isto explica por que os números não são tão altos, por que a audiência minguou em meses, e por que a única coisa que se vai encontrar sobre qualquer um destes personagens mencionados nos artigos sobre eles são coisas associadas à sua identidade. Até o autor do artigo admite:
[Ms. Marvel e Capitã Marvel], em suas novas incarnações, repetidamente têm interrogado raça e gênero (e, no caso da Ms. Marvel, fé). O restante de nós têm tocado em políticas de identidade apenas de leve, ainda que geralmente de forma memorável. Thor lutou com o fato que ninguém parece levá-la tão a sério quanto seu predecessor, o Capitão América negro tem lidado com grupos de ódio racistas, o Hulk coreano-americano tem desafiado estereótipos de nerdice asiática, e Miles tem comprimido suas mãos sobre onde quer que ele se sinta confortável com pessoas falando de sua etnicidade.

Nada disso tem a ver com ser super-herói. Poucos dos personagens originais foram criados com um intuito específico de apelar para uma audiência de homens brancos como homens brancos. os personagens eram simplesmente arquétipos ou metáforas gerais para certas circunstâncias.

Ainda assim estes novos personagens "variados" estão tão voltados para atuar em políticas de identidade que eles ironicamente fazem a mesma coisa que deveriam desfazer: acabam isolando os fãs. Em vez de fazer os personagens para todo mundo, estes personagens são apenas para os seus grupos afiliados. Ms. Marvel para muçulmanos, Capitã Marvel para feministas, Thor feminista para as feministas radicais, Capitão América negro para o povo negro, Hulk asiático para asiáticos, e Miles Morales para os bi-racias, hispânicos e negros.

Não é de se espantar por que tais personagens tenham tão limitado seguimento, por que seus livros jamais vendem tão bem apesar de todo o clamor por sua suposta popularidade, e por que a única coisa sobre a qual se vai ouvir sobre tais personagens são suas identidades e as políticas por detrás.

Esta é uma má decisão de negócios, e não é porque é errado ter personagens não-brancos, não-negros, não-héteros. É uma péssima decisão porque quando se proxeneta para a esquerda progressiva, eles jamais ficarão satisfeitos. Eles não apoiarão seus tweets, reblogs, e numerosos artigos exibicionistas escritos por pessoas que jamais leram e jamais lerão uma simples história em quadrinhos.
META
Título Original When Pandering Goes Wrong
Autor Toy Soldier
Link Original https://toysoldier.wordpress.com/2016/07/11/when-pandering-goes-wrong/
Link Arquivado https://archive.today/WJWWs

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