sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"Mas isto é causado por outros homens..." por Carlos Rodríguez

"Mas isto é causado por outros homens..." é uma maneira hipócrita de silenciar debates de gênero


Quando falo de discriminação e violência contra homens em certas áreas {EB} como o serviço militar obrigatório ou o homicídio, uma das respostas que costuma repetir-se é: "estas são coisas que os homens fazem contra si mesmos, e portanto não constituem problemas de gênero".

Este tipo de afirmação me parece interessante quando comprovamos por exemplo que o corte genital feminino é um costume praticado e perpetuado principalmente por mulheres {EB}. Isto não impede porém que seja considerado um problema de gênero, e até na Espanha o Partido Socialista lançou uma proposta para incluí-la como delito de gênero em sua Lei Integral.

Outro pensamento que seria incluído nesta proposta como violência de gênero é o tráfico humano. Isto também é interessante para mim, porque de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, 45% das vítimas deste crime seriam do sexo masculino, e cerca de 50% dos presos por tráfico globalmente são mulheres (p. 59). Um dos relatórios da ONU disse que em países onde se revelam o sexo dos traficantes, as mulheres eram maioria em 30% e, em alguns países, o padrão é "mulheres que sequestram mulheres" (para uma boa visão geral da questão do tráfico pode consultar neste artigo {EB}). Nada disso, no entanto, impede que o tráfico seja considerado "violência de gênero", termo aplicável somente à mulher, tal como definido pela própria lei.

Finalmente teríamos o infanticídio e aborto de meninas, que também é majoritariamente perpetrado por mulheres em países como China e Índia. Um problema que se considera de gênero em que se pese que o sexo da vítima e do algoz sejam idênticos.

Chegando até este ponto, alguém me dirá que não podemos nos limitar apenas ao sexo de ambas, e que existem fatores estruturais que propiciam uma violência que de outra forma não ocorreria. Um exercício de compreensão que não se é feito no caso dos homens, debaixo da falsa crença de que como uma minoria de membros do seu sexo está em posição de poder, de alguma forma o sexo masculino é responsável pelo seu destino, já que esta minoria os ajudaria. De alguma forma, acredita-se que a minoria dos homens em posição de poder concede prioridade aos interesses de seu sexo à frente dos homens e mulheres de sua própria classe social (a Revolução Francesa e outras têm demonstrado o contrário). Um devaneio semelhante a crer que só porque os Estados Unidos têm um presidente negro, a comunidade afroamericana ostenta mais poder do que tinha antes.

Cabe lembrar também que tanto na guerra como nos homicídios intramasculinos, as mulheres têm estado historicamente {EB} envolvidas {EB}, instigando {EB} os homens ao combate {EB}. Sigam os links acima em caso de dúvidas.

Podemos claramente dizer, portanto, que se o critério para qualificar um problema como "de gênero" requer que vítimas e algozes sejam do mesmo sexo, então dever-se-ia eliminar desta categoria o corte genital feminino e boa parte do tráfico de mulheres a fim de renomeá-los como "problemas de direitos humanos" ou outros nomes mais neutros.

Como temos visto na proposta do Partido Socialista e certamente na prática, isto não se cumpre. Devemos então nos perguntar, quem faz as regras e por que existe um duplo padrão na hora de aplicá-las? A crítica "essas são coisas que homens fazem a si mesmos" não parece ser uma grande maneira de silenciar o fato que os homens também enfrentam problemas por razão do sexo cuja gravidade é semelhante àqueles das mulheres.

Problemas intermitentes


Existem duas formas de catalogar um problema de gênero:
  • Quando um sexo o experimenta majoritariamente ou em razão de sexo
  • Quando um sexo faz dano ao outro

Como devem ter adivinhado, eu opto pela primeira, pois já vimos que a segunda é aplicada de forma seletiva para excluir os homens. Não obstante, esta segunda versão também seria problemática por criar o que eu chamo de "problemas de gênero intermitentes". Ao que me refiro com isso? Vejamos com um exemplo.

A segunda definição detém que para se definir um problema como sendo "de gênero" é necessário que vítimas e algozes sejam de sexos distintos. Pois bem, na Lituânia, o serviço militar obrigatório foi restabelecido pela presidente conservadora Dalia Grybauskaite. Devemos pensar que este foi um problema de gênero porque uma mulher que o impôs? E, caso contrário, se tivesse sido um presidente homem a impô-la, então não seria um problema de gênero?

Lembremos também o que ocorreu na Guerra do Afeganistão, onde a retórica feminista foi utilizada para justificar a invasão do país a fim de libertar as mulheres afegãs.

Marit Nybakk, que presidia o Comitê de Defesa Norueguês, declarou em 2002 ao diário nacional Dagbladet:
Esta é uma guerra de libertação e também uma guerra parea libertar as mulheres do Afeganistão. Para tanto a apresentação dos direitos das mulheres é crucial para mim. Durante muitos anos tenho estado gravemente preocupada com a extrema opressão das mulheres sob o governo talibã. Aqui no Ocidente fechamos nossos olhos ao grotesco tratamento que as mulheres são submetidas porque não nos afeta.

Devemos salientar que naquele ínterim a Noruega havia implementado serviço militar somente para homens.

Marit Nybakk não estava sozinha. Organizações de peso como a americana Feminist Majority Foundation também ofereceram seu apoio à guerra do Afeganistão. A feminista Hillary Clinton igualmente apoiou uma guerra de libertação feminina que custaria o sangue de milhares de homens. Isto teria sido menos problema de gênero contra os homens se Nybakk fosse um deles?

Pensemos também por exemplo no direito à integridade genital masculina (a circuncisão é legal em quase todos os países). Se uma mãe decide o procedimento para seu filho sem necessidade médica, é mais problema de gênero do que se fosse o pai? E se fosse uma médica em vez de um médico a realizar o procedimento?

Não esqueçamos da licença marital {EB}, lei aprovada por Isabel de Castilla e promulgada por sua filha Juana. Isto seria menos questão de gênero porque elas estavam envolvidas, ou talvez era mais?

E, claro, podemos falar do tráfico humano. Nós teríamos um exemplo dessa "intermitência" na prisão de Lin Yu Shin, dona da companhia Gian Ocean International Fishery, por traficar homens para trabalhar como pescadores escravos na África. O problema dos pescadores escravos seria de gênero nesse caso, mas deixaria de ser se o presidente da companhia fosse homem, embora o fenômeno afete exclusivamente homens. Da mesma forma seria com a prostituição forçada ou o trabalho forçado de mulheres. Só seria um problema de gênero se os traficantes fossem homens, e portanto "intermitente".

Isto faz algum sentido? Só se nos agarrarmos obstinadamente à ideia para evitar admitir a todo custo que os homens também têm problemas de gênero (é possível encontrar uma boa lista no artigo "A Discriminação Masculina em 31 Memes" {EB}).

Da minha parte, vou prosseguir usando a primeira definição para me referir a tais problemas, e espero que quem esteja em desacordo comigo seja coerente e igualmente exclua o infanticídio feminino, a mutilação genital, o tráfico humeno e admita um certo grau de "intermitência" nos outros. Caso contrário, considerarei um argumento hipócrita cuja finalidade é silenciar uma conversação considerada inconveniente por solapar seus pilares ideológicos.
META
Título Original 'Pero son otros hombres los que hacen eso...' Una forma hipócrita de silenciar debates de género
Autor Carlos Rodríguez
Link Original https://quiensebeneficiadetuhombria.wordpress.com/2015/09/13/pero-son-otros-hombres-los-que-hacen-eso-una-forma-hipocrita-de-silenciar-debates-de-genero/
Link Arquivado https://archive.today/NWMSi

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