segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"Não Existe Tal Coisa Como Estupro Marital" por Judgybitch

Não Existe Tal Coisa Como Estupro Marital


O escritor de ficção científica Vox Day e a feminista Louise Mensch foram ao Heat Street recentemente para debater se estupro marital é uma coisa real. É uma leitura interessante, mas o resumão é que Day acredita que casamento inclui consentimento com o sexo, o que só pode ser revogado com divórcio, e Mensch pensa que se você consentiu com o sexo uma vez, isto não implica que você deu consentimento tácito a todo sexo futuro.

Mensch é uma feminista bastante razoável, reconhecendo que mulheres geralmente dizem não quando querem dizer sim, mas insistindo que se uma mulher está irritada e genuinamente quer dizer que não quer fazer sexo, seu marido a terá estuprado se ela forçá-la a ter o sexo que ela não quer.
Estou postulando onde uma mulher claramente disse não, claramente quis dizer isso, ela sente-se mal, acabou de ter uma grande briga com o homem, e qualquer número de tais situações bastante óbvias. A mulher disse naquele momento, mesmo que eles regularmente tenham sexo como casal, ela não quer ter sexo e ele a força sobre ela. Isto é claramente estupro e não remove o fato que ela tinha uma obrigação geral de ter sexo com ele e ele com ela. Quando você extrapola isto de cada vez que ele se sente assim, eu não veja justificação em seu argumento tão largo para este passo.

É aqui que as credenciais feministas de Mensch são mais óbvias: olhe para as suposições que dirigem a última sentença. Ela sente como se fazer sexo, sua esposa estando mal ou irritada, e Mensch trabalha na suposição que ele a forçará a ter sexo sempre. Como sempre, na terra do feminismo, homens são monstros.

Eu penso que nós temos que distinguir claramente entre ter um direito e exercer este direito. Sob a Segunda Emenda da Constituição americana, todo americano tem o direito de manter e portar armas. Muitos americanos escolhem não exercer este direito. Eles ainda têm tal direito, quer usem ele ou não. A questão sob consideração neste debate em particular é se o casamento confere consentimento ao sexo o qual não pode ser restringido exceto pela dissolução do casamento.

Se você tivesse me perguntado a algumas semanas atrás, eu teria concordado com Mensch. Se eu digo não a meu marido, eu espero que ele respeite isso, apesar de que, se eu for bem honesta, eu ficaria muito insultada e irritada se ele rejeitasse meus avanços. Nestes 18 anos em que vivemos juntos, eu não me recordo de ele ter me rejeitado, e posso contar nos dedos de uma mão o tanto de vezes que eu absolutamente recusei ter sexo com ele. Ponderando mais cuidadosamente a ideia, agora eu cheguei à conclusão que Day tem razão - estupro não pode existir em um casamento. Se estupro marital fosse algo, então 100% do sexo que eu já tenha feito com meu marido foi estupro.

Eu nunca obtive consentimento dele e nem ele de mim.

Consentimento é pressuposto como função básica do casamento. Consentimento ao sexo é parte do que é o casamento. Mensch reconhece a obrigação geral que casados têm um com o outro, mas recusa o consenso geral. Eu acho que a parte mais interessante da discussão circunda o uso de força e violência. Casamento confere o direito de ter sexo com seu consorte, mas não te confere direito algum de atacá-lo. Por que meios um consorte força sexo que não quis sem o uso de força? Mensch é bastante inflexível no que a maioria dos estupros maritais será de maridos estuprando esposas, porque ela tem dificuldades imaginando sob que circunstâncias uma mulher poderia forçar um homem ao sexo penetrativo. Eu claramente tenho uma imaginação mais vívida que a de Mensch, mas pelo bem do argumento, digamos que ela esteja correta.

Então eu me recuso a fazer sexo com meu marido, e ele avança em fazer sexo comigo, contra minha vontade.

Como?

Como ele pode fazer isso sem usar força ou violência?

Ele não tem meios de executar seu direito. Isto não significa que seu direito não exista. Feministas irão geralmente fazer sensacionalismo barato sobre estupro marital legalizado até os anos 1990 na maioria dos estados dos EUA, mas talvez haja uma razão para tal: leis contra assalto eram perfeitamente eficazes em assegurar que homens não pudessem exercer seus direitos sem o consentimento da mulher.

Então, qual o ponto das leis de estupro marital? De acordo com Day:
... o conceito de estupro marital é criado por marxistas culturais numa tentativa de destruir a família e destruir a instituição do casamento ...

Essencialmente, leis de estupro marital dão à mulher uma pistola carregada. Teoricamente homens têm a mesma arma, mas na prática, como nota Mensch, a maior parte dos estupros maritais será de maridos como agressores e esposas como vítimas. Todo e qualquer sexo pode ser definido como estupro, dependendo dos caprichos da mulher envolvida. Como pode um homem provar consentimento para toda e cada ocorrência? Ele não pode. Nem pode a esposa também, mas quantas mulheres serão prováveis de encarar essa acusação? Eu não consigo encontrar um simples exemplo.

A consequência mais insidiosa de toda ideia de estupro marital é que ele reforça a narrativa do homem como monstro. Sexo é atrelado a perigo, e não de uma forma excitante. A qualquer momento, o homem que você ama, respeita, admira, deseja - a qualquer momento, ele pode te atirar na sala e te estuprar. Eu penso que Day tinha o melhor argumento sobre por que o consentimento é uma parte essencial do casamento, mas eu queria que Mensch e Day tivessem discutido os cenários em maiores detalhes. Em um certo ponto, Mensch pergunta se seria aceitável que uma mulher sentasse na cara de seu marido até ele satisfazê-la oralmente, e Day concorda que sim, ela tem esse direito.

Mas quem faria isso? E que tipo de relacionamento você esperaria nutrir com este tipo de comportamento? Isto é grosseiro, e intimidador, e egoísta, e desagradável, e muito francamente, qualquer mulher que fizesse isso seria uma imbecil. Mas aí é que está: o mesmo vale para qualquer homem. O que está deixado de fora de toda essa conversa é a suposição automática que homens estuprarão suas esposas se não existir uma lei específica proibindo isso.

Se estou me sentindo mal ou estou exausta ou apenas de mau humor por qualquer razão, meu marido não vai me pressionar para sexo. Assim como eu jamais demandaria sexo dele se eu visse que ele está cansado ou não se sentindo bem. Uma massagem nas costas e dormir mais cedo é uma reação mais provável, porque eu não sou uma retardada e nem ele é.

Moralmente, estupro marital não é possível. Legalmente, mais que certamente o é. A função principal destas leis é demonizar homens e instrumentalizar a sexualidade das mulheres, de modo que ela possa ser usada para punir os homens que não sejam mais úteis para as mulheres. Isso parece um todo de uma ideologia, não? Agora não é mais mistério para mim por que feministas amam tanto o estupro marital. Este é o todo de sua ideologia, sumarizado em um claro meme.

Homens são estupradores.

Mulheres são vítimas.

E feminismo é câncer.

Com muito amor,

JB

META
Título Original There is no such thing as marital rape
Autor Janet Bloomfield - AKA Judgybitch
Link Original http://judgybitch.com/2016/09/12/there-is-no-such-thing-as-marital-rape/
Link Arquivado http://archive.today/wLauM

domingo, 15 de janeiro de 2017

"Se vir Jezebel pela rua, atropele essa vadia!" por Paul Elam

Se vir Jezebel pela rua, atropele essa vadia!


Nota do Publicador: Este artigo, publicado originalmente em 22 de outubro de 2010, é uma resposta satírica a uma peça que apareceu no site feminista Jezebel ("Você já bateu no seu namorado? Porque, eh, nós já") e a "piadinhas" comuns na mídia sobre mulheres atacando fisicamente homens e meninos. Este já foi trazido de volta à página inicial com uma cutucadinha para Ally Fogg, provavelmente uma das mais dissimuladas trucagens do planeta. Fogg estava discutindo o "vilanesco" e violento Movimento pelos Direitos dos Homens e ele e seus comentaristas estão novamente em lágrimas, procurando atenção mediante ao atacar o AVFM nos comentários de um artigo recente do partido Justice 4 Men and Boys (não afiliado ao AVFM - mesmo assim, temos termos amigáveis com seu fundador Mike Buchanan) com citações fora de contexto, aparentemente na esperança que outros sejam estúpidos demais para reconhecer uma sátira quando a veem, mesmo que seja meticulosamente assinalada para eles. O artigo é repostado como está, as únicas mudanças serão os "alertas de Fogg" que usaremos para ajudar os numerosos seguidores intelectualmente lentos de Ally a reconhecer uma sátira assim que uma delas surgir diante de seus olhos. Aqueles itens que não são sátira, mas podem ser confundidos como tal pelos intelectualmente desfavorecidos, também serão identificados [entre colchetes].

Para sua edificação avançada, nós providenciamos este link para a seguinte página wiki, que fornece definições das sátiras horaciana e juvenaliana. O que nós fazemos ao instruir este artigo é um exemplo de sátira da variedade juvenaliana. Para aqueles com inclinações como as de Fogg que não saibam o que é um hiperlink, eu forneço a seguinte definição, com o cuidado de que é toda ajuda que posso oferecer. PE

Sátira juvenaliana, nome originário do satirista romano Juvenal (final do século I até começo do século II DC), é mais insolente e abrasiva que a horaciana. Sátira juvenaliana aborda o mal social com escárnio, ultraje, e ridicularização feroz. Esta forma é gerealmente pessimista, caracterizada por ironia, sarcasmo, indignação moral e injúria pessoal, com menos ênfase no humor. Sátira política fortemente polarizada geralmente é juvenaliana. Veja também: Sátiras de Juvenal.


É mês da conscientização pela violência doméstica, pessoal, e nós estamos aqui na metade final de outro [sem sátira] de masturbação mútua nacional, toda a indústria da violência doméstica punhetando para um frenesi de stats falsificados e mentiras sadisticamente excitantes.

Nós temos saliva voando nos salões do congresso, os antecedentes de demandas histéricas que assumamos como causa mundial de defender mulheres indefesas por todo globo de sua desolada sina na vida como vítimas. Temos criado homens vestindo-se de costura drag e andando uma milha "em seus sapatos", um tipo de autoflagelação de última tendência, nova-era e humilhante por parte de homens que querem expiar por todos os portadores do maligno pênis.

E nós temos um artigo ressurreto de agosto de 2007, das mulheres do Jezebel (destaque para o célebre Dr. Snark) swmonstrando quão impenitentemente violentas elas realmente eram, e quanto elas aparentavam gostar disso.

A escritora sênios Tracie Egan Morrissey escreveu o artigo, que aborda as conclusões da pesquisa reportada na Psychiatric News que "de fato, quando se trata de violência não-recíproca entre parceiros íntimos, mulheres mais comumente são as autoras".

Morrissey reagiu a esta tão frequentemente ignorada realidade, depois de uma pergunta de suas leitoras para aqueles que tenham batido em seus namorados, com isto aqui:
"... bem, vamos apenas dizer que é sábio não mexer com a gente"

E é claro que a seção de comentários que segue o artigo dá subsídios para sua atitude pró-abuso para com os homens. É repleta de mulheres deliciando-nos com histórias de como elas [sem sátira] chutaram, bateram, esmagaram e tiraram sangue de seus namorados por fazerem coisas irritantes que homens às vezes fazem. Uma mulher informou que ela socou seu ex na cara por ter a audácia de estar com outra garota após eles já terem se separado.

[Alerta para o Fogg! Sátira!] É isso. Em nome da igualdade e justiça, eu estou proclamando outubro como o Mês de Surrar Cachorras Violentas.

Eu gostaria de fazer deste o objetivo para o restante desse mês, e todos os meses de outubro que se seguirão, para homens que estão sendo atacados e fisicamente abusados por mulheres - para bater com força nelas. Eu digo, literalmente pegá-las pelo cabelo e enterrar suas caras contra o muro até a presunção de bater em alguém porque você sabe que ela não vai reagir esvair-se pelos seis narizes com alguns milhões de corpúsculos vermelhos.

E fazê-las limpar a bagunça causada.[/Alerta ao Fogg]

[sem sátira] Você sabe, nós costumamos dar um nome para pessoas que só batem naqueles que sabem que não vão contra-atacar.

Valentões.

E todos sabemos que valentões são covardes. Machuque um e eles vão procurar outro para atacar toda vez.

[Alerta para estúpidos. Para aqueles muito acuados para reconhecer sátira, eu vou indicar para eles]

Agora, estou falando sério sobre isso?

Não.[/Alerta para estúpidos] Não porque é errado. Todos deveriam ter o direito de se defender. Diabos, mulheres são geralmente desculpadas por matarem alguém que elas alegam ter-lhes abusado. Elas podem dar um tiro durante a hora do sono e sair andando. Acontece o tempo todo. Isso até te dá um espaço na Ophrah, e bucetistas de toda bucetosfera irão te tornar celebridade.

[sem sátira] Nesta luz, qualquer uma daquelas mulheres do Jezebel e milhões de outras o longo do mundo ocidental são tão dignas de um chute na bunda quanto qualquer ser humano pode ser. Mas não vale o tempo detrás das grades ou o treinamento de controle de raiva que homens têm que suportar se eles são desfaçados o suficiente para defender-se de mulheres agressoras.

A melhor opção é chutá-las para o meio-fio, figurativamente falando, e confiantemente partir para escolhas melhores. Além disso, violência na autodefesa deve ser de alguma forma comensurável com a violências do ataque.

Eu direi isso, porém. Para todos os homens por aí que decidiriam dizer "dane-se as consequências", e revidatam, vocês são heróis pela causa da igualdade; são verdadeiros feministas. E são os Reis Honorários do Mês de Surrar Cachorras Violentas. Vocês são a prova viva do quão vazias são as rodinhas das valentonas e hipócritas "não mexam com a gente".

No espírito das feministas aí, VAI NESSA, CARA!

Nota: mais uma vez, para os que se perderam, este artigo é uma resposta satírica à peça no Jezebel ("Have you Ever Beat Up a Boyfriend? Because, Uh, We Have") e para as "piadinhas" são comuns na mídia sobre mulheres atacando fisicamente homens e meninos. - Eds.

META
Título Original If You See Jezebel in the Road, Run the Bitch Down
Autor Paul Elam
Link Original http://www.avoiceformen.com/mens-rights/domestic-violence-industry/if-you-see-jezebel-in-the-road-run-the-bitch-down/
Link Arquivado http://archive.today/VFeR2

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Alguns Pensamentos Sobre 'Zootopia'" por ToySoldier

Alguns Pensamentos sobre Zootopia


Finalmente eu vi o filme Zootopia, da Disney. Foi o filme animado mais recente. Como o nome sugere, o filme é sobre uma utopia de animais (apenas mamíferos). Judy Hopps (dublada por Ginnifer Goodwin) trabalha a vida toda para tornar-se o primeiro coelho policial apesar da sua pequena estatura. Ela ingressa na força policial e é escalada para o ramo principal em Zootopia. Porém, assim que ela chega, ela descobre que a cidade onde todo mundo pode ser qualquer coisa que quiser ser não é o paraíso que ela esperava.

O filme parece ter uma tomada em políticas raciais, porém, algumas feministas tomaram a mensagem como sendo sobre políticas de gênero, e eu posso ver por quê.

Judy é uma coelha. Todos os seus tratos - pequena, fraca, doce, emocional - são usualmente associados a mulheres e à feminilidade. Durante seu treino para tornar-se uma agente policial, Judy recebe uma grande monta de comentários condescendentes e preconceituosos que parecem semelhantes ao que alguém diria a uma mulher (ironicamente, todos eles são proferidos por uma ursa polar fêmea). Quando Judy chega ao ramo principal de Zootopia, em vez de receber um dos casos de predadores desaparecidos, Judy é posta de policial de tráfego. Seu desempenho estelar na academia não significa nada. O chefe simplesmente quer a coelha cotista [1] fora do caminho.

Muito disso também se encaixa na discussão sobre raça e viés em geral, porém, eu penso que fixar-se no ângulo do gênero fornece uma interessante compreensão no que os produtores do filme realmente fizeram.

Um dos elementos chave do filme é o otimismo de Judy. Ela quer ser uma agente policial mesmo que seu tamanho torne isso dificíl, se não impossível. Todos parecem ser contra seu sonho, mesmo seus pais (a cena deles falando para ela abandonar os seus sonhos é na realidade bem divertida). O fator em jogo é a "raça" de Judy. Coelhos e outros herbívoros são "presa". Carnívoros e onívoros são "predadores". Estes dois formam os grupos raciais no filme. Em certa extensão, eles formam também os grupos de gênero, com as presas sendo fêmeas e os predadores machos. Neste ponto, a vasta maioria dos predadoes, e creio que a totalidade dos violentos, é macho.

Judy explica na abertura do filme como predadores superaram sua natureza violenta e as presas superaram seu medo. Eles podem ser qualquer coisa que quiserem, especialmente se forem para a maior cidade do mundo, Zootopia.

Porém, as coisas não são tão utópicas quanto parecem ser. Alguns predadores ainda são perigosos. Judy aprende isto enquanto criança, quando ela tenta defender alguns companheiros estudantes de uma raposa valentona apenas para ser nocauteada e arranhada na cara. Seu otimismo a impede de julgar o garoto, de nome Gideon. Ela parece vê-lo como um valentão que acabou por ser uma raposa, em vez de uma raposa que faz aquilo que raposas fazem.

Ou é isso que devemos estar pensando. Quando Judy segue para Zootopia, seus pais lhe dão uma pletora de equipamentos de defesa anti-raposa. Ela pega o repelente de raposas apenas para fazer seus pais pararem. Não obstante, antes de Judy ir para seu primeiro dia de trabalho, ela inicialmente deixa o repelente e então volta para o seu apartamento para buscá-lo. Esta é nossa primeira dica de que Judy pode parecer otimista mas mesmo ela tem seu viés.

Nós vemos isso em amostra completa quando ela encontra Nick Wilde (dublada por Jason Bateman). Ela avista a raposa andando de forma bem evasiva e ela o segue. Seus instintos lhe dizem que ele não é bom, não obstante ela descobre que ele só queria comprar um picolé para seu filho.

Este é nosso primeiro gostinho da real Zootopia e do preconceito às claras. O elefante recusa-se a vencer para Nick o picolé porque Nick é um predador.

Claro, nesta instância Judy tinha razão em ter suspeitas. Nick trapaceia ela e o elefante completamente. Quando Judy descobre o truque e confronta Nick, ele estilhaça suas noções pré-concebidas sobre bondade e igualdade em Zootopia.

Se mantivermos a ideia feminista que o filme trata de gênero, este cenário apresenta um problema crítico porque Nick e os outros predadores representam "os homens". Eles deveriam ser os que detêm "privilégio", mesmo assim são os que enfrentam discriminação aberta nas mãos das presas.

Isto é melhor mostrado naquela que considero a cena mais forte do filme. Quando encontramos Nick pela primeira vez, ele é esquivo, ardiloso, e manipulativo. Judy tem que tapear o Nick para que a ajude, e Nick segue a sua maneira a fim de sabotar sua investigação dos predadores perdidos. Suas estripulias levam Judy a potencialmente perder o emprego dos sonhos. No momento que ele nota isso, ele decide ajudá-la. E então ele explica por que ele é como é:

Quando eu assistia a esta cena, a primeira coisa que me veio na cabeça foram todos os homens que frequentam cursos de estudos de gênero. Pensei sobre como deve ser o sentimento de querer fazer algo significativo apenas para que te digam que você é uma ameaça às mulheres e que precisa checar seu privilégio e que não pode nunca verdadeiramente ser digno de confiança. EU pensei sobre as multidões de homens feministas que tentam o seu máximo para alcançar estes padrões impossíveis sem jamais saber o que fizeram de errado, E eu penso nos montes de homens que simplesmente dizem "Ah, quer saber? Foda-se!".

Ou como Nick diz:
Se o mundo só vê uma raposa como sendo desleal e desonesta, não há sentido em tentar ser outra coisa.

Esta parece ser a mensagem que muitos homens obtêm do feminismo. Em um nível mais abrangente, esta parece ser a mensagem que muitos brancos tomam das discussões sobre raça. Isto também acontece com muitos pobres e minorias. Parece que quando pessoas julgam outro grupo com tamanha severidade, isto cria um viés auto-perpetuador. Nick é uma raposa desonesta porque ele foi tratado como uma.

Esta é uma cena dos diabos, e é uma que mina completamente o ângulo feminista porque não é executada como uma boa mensagem. Ela é tratada como preconceito.

Nós vemos isso mais tarde no filme quando Judy finalmente ganha a confiança de Nick após resolverem o caso. Ninguém pode explicar por que alguns predadores retornaram a seus primitivos modos predatórios, como Judy admite em uma comitiva de imprensa. Ela afirma que talvez seja uma causa biológica, que esteja na natureza dos predadores ser violento. Obviamente isto machuca Nick profundamente, particularmente quando ele vê alguns dos predadores amordaçados como aconteceu com ele quando criança.

Dado que este é um filme Disney, ele não poderia ficar com essa brecha. Mesmo assim o que aconteceu não foi Nick se desculpando com Judy. Foi Judy admitindo que ela não era tão livre de vieses como alegava ser. Existe um tanto de manipulação emocional na cena, mas no geral é algo um tanto incomum. Quantas vezes vemos uma personagem feminina desculpando-se para um personagem masculino, quanto mais sendo ela a que de fato está errada?

Se este é um filme feminista, então o que aconteceu é que a feminista admitiu que estava sendo sexista e desculpou-se.

Eu não penso que este é um filme feminista ou de justiça social. Eu penso que é um filme que olha para o viés de uma perspectiva objetiva, mostrando que qualquer um - até mesmo aqueles que se consideram desprivilegiados - pode ater-se a vieses. Eles não vão desaparecer magicamente só porque admitimos que eles existem. O mundo não é um lugar perfeito, e provavelmente nunca será uma utopia. Porém, se reconhecermos e confrontarmos nossos vieses, talvez podemos fazer desse mundo terrível algo um pouco melhor.

Esta é uma mensagem muito boa para um filme Disney muito belo.


FootNotes:
[1]No original, "token rabbit".

META
Título Original Some thoughts on Zootopia
Autor Toy Soldier
Link Original https://toysoldier.wordpress.com/2016/06/11/some-thoughts-on-zootopia/
Link Arquivado https://archive.today/qACBM

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Tente ouvir mulheres reais" por JudgyBitch

Tente ouvir mulheres reais, Mark Ruffalo, retardado ignorante

Mark Ruffalo, um ator, recentemente tomou para si a tarefa de informar as milhões e milhões de mulheres que não se identificam como feministas que elas são "retardadas ignorantes" [Link1]. Deixando de lado seu comicamente deficiente apanhado da história - feminismo acabando com o comércio de escravos? Sério? Sério mesmo, Mark? As datas 1865 [Link2] e 1960 [Link3] não te atingem como sendo um tiquinho assim incongruentes?

Mas vamos ser generosos. Deixemos de lado o fato que mulheres podiam votar [Link4], manter ofícios [Link5] e deter propriedade [Link6] muito muito antes do feminismo sequer ter mostrado sua carranca horrenda e apenas nos concentrar na essência das alegações escravocetistas de Ruffalo. Em essência, Ruffalo está expressando sua gratidão para as feministas e sugerindo que mulheres que não compartilham sua aderência são desertoras. "Retardadas ignorantes" para usar sua frase.

Você é grato a feministas, não é, Mark? Tudo bem. Sejamos totalmente gratas, não devemos? De acordo com seu perfil no IMdB [Link7] você nasceu em Kenosha, Wisconsin, de Marie Rose (Herbert), estilista e cabeleireira, e Frank Lawrence Ruffalo, um pintor de construções.

Nascido numa família nuclear com mãe e pai? Teve sorte. Casais casados continuam a ser mais felizes, saudáveis, ricos e trazem a reboque filhos de mais sucesso [Link8], mais produtivos e prósperos comparados com famílias encabeçadas por mães solteiras e pais relegados a máquinas de dinheiro. E você sabe bem disso, não é? Você foi casado com a mãe de seus três filhos por quinze anos. Você não é estúpido, né? É apenas hipócrita.

O que aconteceu com as famílias nucleares? Elas foram destruídas. Pelas feministas [Link9]. Eu suponho que você não pode agradecer a uma feminista justo ainda, dado que sua família não foi dizimada e envenenada contra a saúde, a riqueza e a felicidade, ao contrário de um número crescente de famílias hoje. Olhe em sua volta. Todas essas crianças destruídas [Link10]? Elas são o produto de famílias em nada parecidas com a sua.

Agradeça a uma feminista por isso!

Espero que sua esposa continue a achar charmoso que você xingue a vasta maioria de mulheres "retardadas ignorantes", porque se ela se cansar de sua bobajada esquerdista sem sentido, ela vai te dar um porrilhão a mais de motivos para você ser grato às feministas. Você vai amar o que as feministas criaram para você. Pode confiar em mim.

Custódia das crianças? Nem fodendo [Link11]. 80% dos filhos são concedidos às mulheres e não existe jurisdição nos EUA que preserve a presunção de igualdade entre os genitores. Nenhuma. Parentela compartilhada não existe como presunção legal em lugar algum dos Estados Unidos. Iniciativas de parentela compartilhadas continuam a ser propostas e rejeitadas. Rejeitadas por quem?

Por feministas, Mark [Link12].

Agradeça a uma feminista porque elas não te consideram um contribuidor igualmente valioso para a vida e o bem-estar dos seus filhos, não crerem que seus filhos se beneficiarão de um igual relacionamento com ambos pai e mãe, e não confiarem em você para cuidar de seus filhos por si só sem abusá-los ou usá-los como intermediário para machucar, controlar e ferir sua esposa. Sim, Mark, feministas acreditam que homens como você não amam de verdade seus filhos - vocês amam machucar e controlar mulheres [Link12] e usarão os filhos para isso, sem hesitação ou consideração por seu bem-estar.

Agradeça uma feminista, Mark.

Você é casado com uma atriz que ninguém ouviu falar [Link13]. Aposto que isso te preocupa um bocado, não é? Ela não tem trabalhado desde 2003, mas você sim. Você tem trabalhado muito bem. Espero que ela não tenha se maravilhado com o rapaz do suprimento de imigrantes ilegais e tenha engravidado com uma última progênie antes de assinar a papelada do divórcio! Você terá ainda mais para agradecer às feministas! Metade de todo dinheiro que você conquistou é dela. Não há meios de prova [Link14] para determinar com o quanto ela contribuiu, o qual claramente não é zero, mas foi metade? Questão complicada! Não importa. Metade dos seus futuros rendimentos pode ser dela também. Pergunta pro Robin Williams.

Opa, espera um pouco. Ele está morto. Mais um dentre tantos homens que mataram a si mesmos em uma ignorada epidemia de suicídios [Link15] impulsionada por Cortes de Família grosseiramente injustas.

Mas ela te traiu? Ela destruiu seu casamento? Quebrou seus votos? Hahahaha! E daí? Dê metade para ela. Oh, aquele bambino latino que ela carrega? Se você ainda era legalmente casado quando o bebê nasceu, ele é seu [Link16]. DNA? Haha, você é tão fofo. Até parece que isso importa.

Agradeça a uma feminista, Mark.

Você é cidadão americano, Mark, então na ocasião de seu 18o. aniversário, foi apresentado com um Cartão do Serviço Seletivo e uma escolha: você gostaria de votar, inscrever-se em programas de financiamento estaduais e federais, e evitar condenação criminal? Assine o cartão [Link17].

Por que você?

Porque você é homem. Esta é a única razão. Você é homem, tem que concordar em morrer. Seu filho irá encarar a mesma escolha no dia que fizer dezoito. Suas filhas não. Lembra daquelas suffragettes que você estava tietando quando você decidiu que a maioria das mulheres é "retardada ignorante"? Estas mulheres lutaram pelo direito de votar, mas não a obrigação de morrer?

Aquelas eram as mesmas mulheres andando pelas ruas de Londres distribuindo penas brancas [Link18] para homens que tiveram a audácia de sobreviver em sua primeira distribuição nas malditas trincheiras encharcadas de sangue, urina, vômito e morte da Primeira Guerra Mundial. Estas penas indicavam que os homens eram covardes. Foi um esforço para humilhá-los a fim de enviá-los para o banho de sangue, enquanto as mulheres permaneciam em casa exigindo direitos sem responsabilidades. Estas mulheres marcharam por aí em anáguas que jamais tocariam cadáveres de companheiros, jamais seriam pressionados contra bocas arfando para respirar num ar envolto em gás mortífero, jamais seriam rasgados para estancar a vida se esvaindo pelas veias de irmãos, amigos, e estranhos. Estas anáguas as mantinham aquecidas e seguras em casa, enquanto homens morriam horrendamente em números assombrosos.

Gratidão? O que é isso? Estas mulheres não eram gratas. Elas distribuíam penas brancas. Para os covardes. Que estavam vivos. Elas queriam eles mortos.

Agradeça a uma feminista, Mark.

Seu moleque é um garoto ativo, tempestuoso, fisicamente engajado, assim como muitos meninos (e algumas meninas) são? Espero que não esteja planejando a educação pública para ele. Ele será drogado até o crânio [Link19] em razão de sua falha em emular perfeitamente suas irmãs.

Agradeça a uma feminista, Mark.

Sua última produção está contratando estagiários? São mulheres? Não as irrite, Mark. Uma acusação de impropriedade ou má conduta sexual pode acabar com sua carreira. Devido processo [Link20]? Hahahaha! Que hilário! Evidência? Prova? Plausibilidade? Pare - você está me matando aqui! Hilário demais! #EscuteEAcredite [Link21], Mark. Ande na ponta do pé ao longo das pequenas megeras que estão com seus olhares fixos em você. Os princípios mais básicos de justiça e a presunção de inocência não se aplicam a você quando a acusação é de assalto sexual, não importa quão absurda.

Agradeça a uma feminista, Mark.

Você é um cara grande, Mark, mas espero que você saiba que sua esposa tem a permissão de te estapear, socar, atacar, chutar, morder, arranhar ou de qualquer outra forma te assaltar, e se você se atrever em levantar a mão para se defender, você será detido e acusado, graças ao Violence Against Women Act [Link22]. Eu espero que ela não leia o Jezebel regularmente, porque aquelas senhoras escrevem colunas [Link23] sobre o quanto elas divertem-se abusando seus parceiros homens. Isso pode lhe dar ideias. Não importa, porém, porque isto é contra você, não contra ela. Não ataque mulheres, Mark, mesmo que mulheres te atinjam, porque é #ElePorEla, lembra? Não é #NósPorTodos. Não seja doido. Violência contra mulheres e meninas é ruim. Violência contra homens e meninos é engraçado!

Agradeça a uma feminista, Mark.

Eu decerto espero que você não acabe morando na rua, Mark. Assista às jovens meninas que se divertem espancando homens sem-teto até a morte [Link24]. E sim, a maioria esmagadora dos sem-teto é homem [Link25]. Um monte deles está escapando de situações domésticas abusivas, mas não existem espaços para servir as suas necessidades, porque apenas mulheres [Link26] recebem financiamentos para se livrar da violência doméstica.

Agradeça a uma feminista, Mark.

Este é o mundo em que você vive, Mark, e recusando-se a ver que a realidade que é este o mundo que seu filho herdará. Você está bem com isso? Enquanto suas filhas estão bem, seu filho que se foda? É isso mesmo?

Deixe-me te contar um pouco sobre direitos dos homens [Link27] e o que fazemos: Nós somos uma comunidade de homens e mulheres que falam sobre igualdade de gênero e igualdade de uma forma que inclua a todos. Nós falamos sobre mulheres e meninas e homens e meninos e nós consideramos todos igualmente valorosos, dignos e merecedores de ajuda, apoio, reconhecimento e apreciação. Ninguém está acima de críticas, ninguém está abaixo de ser notado. Todos importam. Incluindo homens. Incluindo meninos.

Por quê?

Porque homens e meninos são seres humanos. Que outra razão você precisa?

Se você pensa que qualquer conversa sobre gênero que não culpe homens e trate mulheres como vítimas perpétuas e eternas é axiomaticamente misógina, você pode agradecer a uma feminista. Se você acha que mulheres tomando decisões sobre suas vidas e como elas desejam viver são "retardadas ignorantes", agradeça a uma feminista. Se você acha que a única forma de entender o mundo é atulhando-o pelo moedor humano do fascismo, agradeça a uma feminista. Se você acredita que mulheres são quasi-bebezinhos indefesos, traumatizados e emocionalmente deficientes necessitadas de seu "cavalheirismo branco de armadura reluzente", agradeça uma feminista. Se você acha que mulheres deveriam ser livres para rejeitar todos os seus papéis tradicionais, mas homens deveriam "ser homens" e adotar seus papéis tradicionais sem questionamento ou hesitação, agradeça a uma feminista.

Se você quer ser grato a uma feminista, seja grato a elas por tudo.

Se você quer saber por que homens estão irritados e por que mulheres estão posicionando-se ao seu lado, rejeitando o rótulo feminista em números que aumentam cada vez que a questão é feita [Link28], comece a reparar no que as feministas fazem.

Então, pense se elas merecem seus agradecimentos.

Enquanto isso, da próxima vez que te parecer uma boa ideia se levantar e proclamar que a maioria das mulheres é estúpida, não o faça.

Não seja um retardado ignorante, Mark Ruffalo.

Com muito amor,

JB


FootNotes:

META
Título Original Try listening to actual women, Mark Ruffalo, you ignorant jerk
Autor Janet Bloomfield AKA Judgybitch
Link Original http://judgybitch.com/2015/06/03/try-listening-to-actual-women-mark-ruffalo-you-ignorant-jerk/
Link Arquivado http://archive.today/E6iXY

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

"Filhotes do Califado Chacinados" por Mark Dent

Filhotes do Califado Chacinados



Lá pelos anos 1960, tinha uma série de televisão chamada The Invaders (Os Invasores), estrelando um personagem de Roy Thinnes. Quando eu era um garotinho, amava esse programa. A premissa básica da série era que a terra tinha sido invadida e os aliens viviam entre nós, planejando e preparando sua eventual conquista de nosso planeta.

O personagem de Roy Thinnes ficou sabendo da invasão quando se perdeu dirigindo por uma zona rural desconhecida e cruzou com uma nave alienígena, no fundo da floresta. À medida em que a série prossegue, David Vincent (o personagem interpretado por Thinnes) é capaz de identificar os alienígenas entre nós observando o dedo mindinho da mão esquerda. Ele é levemente deformado em razão de um erro quando eles tomam forma humana.

Toda semana, David tentava convencer os oficiais céticos do governo, os agentes da lei ou qualquer um que o ouvisse falar que a invasão era real e que os aliens estavam entre nós. Dá para imaginar a reação que tais afirmações gerava naqueles que ele alertava.

Eu contei para Maggie (minha magnífica esposa) que eu me sentia às vezes como David Vincent quando tentava explicar minha postura sobre direitos dos homens para um amigo ou conhecido.

Eles me olham com uma expressão cínica e cautelosa em suas faces, mesmo quando eu lhes apresento fatos irrefutáveis sobre as questões que confrontam os homens. O que para mim parece apenas falar o óbvio ululante, parece ser algo inteiramente escondido ou inexistente nos olhares de muitos de meus amigos.

A noção de descartabilidade masculina é um daqueles aliens invisíveis que vemos claramente todo dia. Hoje meus olhos passaram por uma manchete, "Filhotes do Califado Mortos em Centenas".

Continuei lendo.
Mais de 300 crianças soldados do Estado Islâmico - apelidados "filhotes do califado" - foram trucidados em Mosul, após terem sido enviados em batalha pelo grupo terrorista, como reportado por um grupo de direitos humanos.
E segue:
Em um último ato de desespero, reminiscente dos últimos dias dos Nazi, eles implantaram sua brigada de crianças soldados.
Tem uma foto de colunas e colunas de meninos jovens alinhados diante de um comandante adulto. A legenda diz:
O grupo terrorista realizou lavagem cerebral, treinamento e armamento em centenas de crianças a fim de lutar por eles.
E mais:
De acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, centenas deles foram mortos enquanto as forças do governo iraquiano se aproximavam, com cobertura de aviões de combate e robôs-zangões.

O guarda da base britânica disse: isso vai elevar a contagem da mortalidade para pelo menos quatrocentos combatentes sírios mortos nas fileiras do Estado Islâmico desde o começo da batalha em Mosul. Entre eles, mais de trezentos soldados dos "leõezinhos do califado".
Já tinha lido centenas de palavras deste horrível massacre e ainda assim nenhuma vez a palavra "garotos" tinha aparecido em lugar nenhum do artigo. É muito claramente uma escolha bem deliberada, implementada de forma regular na mídia ao longo de todo o mundo ocidental.

Eu continuei lendo, na esperança de ao menos uma referência ao gênero destes garotos mortos:
O assassinato das crianças soldados veio assim que as forças iraquianas e curdas lutaram em seu caminho até os arredores do leste de Mosul, após uma ofensiva de duas semanas.

Bem como no assassinato de crianças soldados, grupos de direitos humanos acusam a milícia tribal sunita sancionada pelo governo de levar a cabo ataques de retaliação contra homens e meninos em áreas recém-capturadas pelos militantes.
Então, onze parágrafos na história e finalmente descobrimos que, bem como o assassinato de meninos soldados (cujo gênero jamais é identificado ao longo do artigo), outros meninos e homens foram eliminados.

Você pode, se quiser, ler o restante dos horríveis detalhes clicando no link ao final deste meu artigo.

Eu acho esse jornalismo abismal. Estou tentando compreender como alguém pode escrever sobre um assunto como este e em momento algum identificar o gênero das centenas de crianças exterminadas. Quando uma criança se afoga na piscina do quintal, somos alertados de seu gênero assim que os fatos estão disponíveis. Quando estes crimes baseados em gênero são cometidos contra homens ou meninos, seu gênero ou jamais é referenciado ou pode ser encontrado só depois de passados mais de 75% do artigo. Isto não seria tão suspeito e perturbador se a mesma abordagem fosse empregada quando mulheres ou meninas são vítimas de massacre ou de algum ato opressor ou brutal. Como todos nós sabemos, o gênero das mulheres vítimas é sempre o foco máximo de qualquer história desse tipo.

Nós todos lembramos do colapso quando 200 garotas foram raptadas pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram. Dá para imaginar a mídia tomando a mesma atitude no caso do rapto destas meninas se eles fizessem o mesmo no caso do assassinato de mais de 300 meninos?

Eis um breve extrato de um artigo recente:
O grupo humanitário Human Rights Watch liberou achados na segunda-feira mostrando oficiais de polícia e membros do serviço militar de sete acampamentos do governo na capital do estado de Borno, Maiduguri, abusando sexualmente de 41 mulheres e meninas que haviam escapado do Boko Haram.

"Já é ruim o bastante que estas mulheres e garotas não tenham o suporte tão necessário para os terríveis traumas que sofreram nas mãos do Boko Haram", diz Mausi Segun, pesquisador sênior na Nigéria pela Human Rights Watch. "É infame e ultrajante que pessoas que deveriam proteger estas mulheres e meninas estejam atacando e abusando delas.
Por que não referir-se simplesmente a "pessoas e crianças"? Por que a súbita urgência em revelar o gênero dos que estão sendo maltratados e abusados?

Esta abordagem foi usada há alguns meses atrás em uma história sobre as taxas crescentes de suicídio.

The Project apresentou uma história sobre nossas alarmantes taxas de suicídio. Parece ser quase impossível para um segmento de dez minutos sobre suicídio na Austrália não usar as palavras "homem" ou "menino" na apresentação inteira, mas foi exatamente isto que os compassivos e caridosos anfitriões do The Project conseguiram fazer.

Não apenas eles falharam em referir-se ao gênero masculino, eles focaram no aumento do número de suicídios de mulheres, o que incluía gráficos e foi seguido de uma entrevista com uma mulher que tentou o suicídio. Três de quatro suicídios resultam na morte de um homem, mas mesmo assim a história focou inteiramente em mulheres e o único gráfico mostrado era relacionado a mulheres.

Dá para imaginar um segmento de dez minutos sobre violência doméstica na Austrália falhando em mencionar mulheres ou garotas ou focando exclusivamente nas vítimas masculinas? É claro que não, pois isso jamais aconteceria. Se tal abordagem chocante fosse usada, pode ter certeza que rolariam cabeças e ocorreria um tsunami de vozes furiosas perguntando como isso pode ter acontecido quando mulheres perfazem a maioria daqueles mortos em incidentes de violência doméstica.

O segmento do The Project resultou em zero protesto (além do meu comentário na página deles no Facebook). É isto o que faz vir à minha mente personagens como David Vincent. Eu sinto como se estivesse uivando para a lua quando expresso meu desgosto por esse ódio gratuito que é praticamente diário na nossa mídia. Por vezes eu fico tão esmagado pelo número de artigos de jornais contendo misandria tão descarada ou distorcendo figuras usadas para perpetuar o mito da opressão feminina que eu simplesmente omito um profundo suspiro e viro a página.

Outro artigo online da ABC sobre suicídio começa estabelecendo o fato que das 3027 pessoas que mataram a si mesmas em 2015, 2292 eram homens e 735 eram mulheres. Um começo promissor, não? Infelizmente, tudo segue ladeira abaixo daí.

As figuras mostram que mortes por auto-ataque são mais comuns em homens que em mulheres numa proporção de três para um, porém o número de mulheres que acabam dando cabo de suas vidas está aumentando.

A executiva-chefe da Suicide Prevention Australia, Sue Murray, disse à ABC News que esta tendência era preocupante:
Temos visto um aumento de 26% nas taxas de suicídio entre mulheres e os números de suicídios entre homens [subindo] ao longo do último período de cinco anos.
Sra. Murray:
Nós não sabemos por que isto está ocorrendo, então precisamos realmente ver o governo vindo com investimentos em pesquisa, de tal forma que possamos realmente entender o que é que está trazendo à tona este aumento e a forma que [as mulheres] estão escolhendo tirar suas próprias vidas. As estatísticas da ABS revelam também que o número de meninas adolescentes que morrem de suicídio tem aumentado.

Em 2015, 56 meninas entre as idades de 15 e 19 deram fim às suas vidas, mais que as 38 em 2014. Os números não são grandes mas certamente o fato que há um aumento de 45% no período de um ano certamente necessita de uma boa investigação. Eu acho que precisamos olhar bem cuidadosamente para o tipo de programa de prevenção de suicídio que estamos empregando.

Aparentemente, Sra. Murray não está perturbada pelo fato que três de quatro suicídios são cometidos por homens. Ela não faz referência alguma a esta estatística e não expressa preocupação alguma sobre por que existe tão grande disparidade de gênero e qual poderia ser sua causa.

Mas, quando ela identifica o fato que houve um leve aumento no suicídio de meninas adolescentes, ela demanda mais investimentos em pesquisa e uma análise da forma que mulheres estão escolhendo tirar suas vidas. Ela até questiona o programa de prevenção de suicídios que eles estão empregando.

Claro, duas mulheres apresentam os artigos sobre suicídio que seguem.

Eu considero isso incompreensível e por vezes sinto como se estivesse andando numa paisagem alienígena. Como pode esse tipo de discurso de ódio gratuito prosseguir sem ser desafiado? Não existe ninguém com poder e influência que se importe um pouco que seja sobre homens e meninos?

O excelente documentário The Red Pill tem um segmento particularmente angustiante da cobertura da mídia sobre o grupo terrorista islâmico Boko Haram. O segmento apresenta uma sequência desoladora sobre homens e meninos massacrados enquanto o leitor refere-se a eles como "pessoas" e "habitantes". Isto não é um engano ou deslize raro. O documentário dá numerosos exemplos desta deliberada camuflagem da verdade quando se refere à opressão ou assassinato de homens. Simplesmente não tem como uma história sobre o massacre das 200 meninas ser apresentada numa linguagem neutra. Bem, isso não aconteceu quando garotas foram raptadas, portanto pode-se ter certeza que um massacre de mulheres teria o gênero como foco majoritário da história.

Eu ainda estou para ouvir qualquer jornalista confrontado com esta maldita evidência e sendo inquirido a justificar esta abordagem doentia para a transmissão de notícias.

Assim sendo, como David Vincent, eu continuarei a alertar meus próximos humanos para a presença dessa agenda odiosa e danosa sendo executada diante de nossos olhos todos os dias. Infelizmente, como David, sinto que minha tarefa de abrir os seus olhos para essa realidade está fadada ao fracasso. Somente um pequeno número de nós verá verdadeiramente os dedinhos deformados dos alienígenas entre nós.


Trailer do The Invaders:
 

Links:




META
Título Original Cubs of the Caliphate Slaughtered
Autor Mark Dent
Link Original http://www.avoiceformen.com/gynocentrism/cubs-of-the-caliphate-slaughtered/
Link Arquivado http://archive.is/GgDVH

domingo, 11 de dezembro de 2016

"Eu fiz um aborto..." por Megan Rhoades

Eu fiz um aborto, e não foi nada parecido com o episódio de natal de Scandal


Seja lá o que você pense acerca do projeto de lei sobre a Planned Parenthood, aborto sempre será um grande assunto


Noite passada o Senado dos EUA votou pela interrupção de fundos governamentais para a Planned Parenthood. Conhecida principalmente por ser o maior negócio fornecedor de aborto nos Estados Unidos, Planned Parenthood esteve bastante presente nos noticiários recentemente - do detestável ataque a uma de suas clínicas por um um atirador, à igualmente perturbadora divulgação dos vídeos com executivos da PP estabelecendo preços de partes fetais. Com a eleição presidencial às portas, você pode dizer que o debate nacional envolvendo o financiamento governamental da PP alcançou um clímax, ao ponto de aparecer em um episódio de natal do muito acompanhado show de TV 'Scandal'.

No episódio final da temporada de inverno de Scandal, que foi ao ar 19 de novembro, os espectadores acompanharam uma história que veio do nada e desapareceu tão do nada quanto. Após um episódio com o plano de fundo dos recursos da PP em balanço (e, ao contrário do que aconteceu na vida real, no episódio o projeto de lei pela interrupção não passou), o episódio termina com uma cena da protagonista Olivia Pope fazendo um aborto. Como que tentando atrelar com os elementos natalinos do final da temporada de natal, a cena foi formada com a trilha sonora de Silent Night.

Alguns responderam que este episódio é uma corajosa cobertura de um assunto importante. Mas como alguém que passou por um aborto, eu odiei. Eu achei que ele deu a impressão de um retrato despreocupado de uma coisa muito séria pela qual muitas mulheres passam pela experiência, e de uma tática política baixa e barata.

Aborto é atualmente parte de nossa cultura, querendo ou não, e assim sendo ela naturalmente será retratada na cultura popular e na TV. Eu assisti a episódios de outras séries de TV que lidaram com o aborto, como Parenthood ou Grey's Anatomy. Eu não tenho problema com o fato de o aborto ter sido retratado em um show do mainstream; o problema é como foi retratado. Eu vejo que o aborto é geralmente retratado como sendo uma decisão fácil, rápida e quase indolor que permite a uma mulher apertar o botão de Pause na sua vida, mesmo que por um momento, e então retomar a vida como se o aborto jamais tivesse ocorrido. O rápido procedimento pelo qual Olivia passou parece expressar que fazer um aborto não é lá grande coisa. Como alguém que esteve numa sala de espera, eu achei o episódio profundamente insensível com mulheres que passaram por um aborto. Claro, cada um tem experiências diferentes, mas o que foi mostrado em Scandal foi completamente diferente de como o aborto é normalmente vivenciado por mulheres, e certamente contrário à minha experiência.

Desde meu aborto, eu tenho caminhado uma jornada de cura, mas tem sido uma longa e dura jornada. Algumas vezes eu penso que estou indo bem, e algo acontece; uma imagem, uma palavra, um cheiro, um gatilho. Meu coração acelera, tenho que respirar mais fundo apenas para suportar, tento segurar as lágrimas. Momentos como o desse episódio.

Como qualquer episódio natalino, o visual incluía luzes piscantes, abetos, copos-de-leite, você sabe; dava quase para sentir o cheiro de natal na sua tela de TV. Mas então vemos uma sala de espera aveludada, e uma mulher pergunta a Olivia se está pronta. As cenas pulam para outros personagens, mas então a câmera volta para Olivia, ela está em uma mesa, pés em estribos. Um médico assentou entre seu joelhos um prolongador para um instrumento em forma de gancho, movimentando ao longo de sua pelve, e então liga uma máquina com um som suave como um sussurro. O médico então é visto colocando um tubo de limpeza, enquanto Olivia segura na barra da cama do hospital, aparentando estar pensativa. A próxima cena de Olivia a mostra em sua casa, freneticamente procurando por bebida alcoólica.

Eu estive numa sala de espera como a da Olivia. Eu esperei numa sala por quase nove horas junto a outras quarenta mulheres, todas esperando pelo mesmo procedimento. Nós não ficamos assistindo às notícias de política do dia na TV enquanto esperávamos. Minha sala de espera era gelada, e tão quieta que seria possível ouvir uma agulha caindo. Eu estive naquela sala de procedimento, só que a sala que eu estava não era nada limpa ou moderna.

Eu encontrei aquele médico. O provedor do meu aborto passou o pouco tempo que esteve comigo perguntando questões aviltantes como "Cê já não é grandinha para saber como evitar isso?" e "Quantas vezes vou te ver aqui neste ano?" Nunca me senti tão minúscula e irrelevante em toda minha vida.

Eu fiquei deitada naquela mesa. Eu senti aquele instrumento. Assistindo à Olívia apenas se dentar como se estivesse fazendo um papanicolau, aparentando não ser afetada pelos instrumentos médicos abrindo o colo e raspando o seu útero. Ela não parece estar drogada, não aparenta estar entorpecida. Ela quase parece... confortável.

Nada poderia estar mais distante do que eu passei. Eu não fiquei confortável. Eu experimentei uma dor terrível. Fechei meus olhos forte e agarrei a mão da enfermeira que estava próxima a mim. Enquanto eu assistia a cena em Scandal, uma onda de tristeza me arrebatou quando notei que Olivia sequer tinha uma enfermeira para segurar sua mão... ela estava travada segurando a barra da cama.

Eu ouvi aquela máquina. Eu sei o som que ela fez e o que ela fazia. Não foi um som calmo e suave de um sussurro. Foi um som forte de aspirador acompanhado pelo barulho de carne sendo sugada... minha carne... minha própria criança... do meu útero.

E como em sua busca por álcool, eu bebi aquele drinque... tentei anestesiar a dor e a memória; eu tentei esquecer o passado mesmo que por um momento ou dois.

Com este episódio de Scandal, meu coração despedaçou-se não apenas por causa do aborto experimentado por um personagem que eu viria a me identificar, mas também por causa da trilha sonora. Tocar um belo hino natalino sobre a indubitavelmente mais famoso nascimento celebrado na história com uma cena que termina uma gravidez é repugnante.
Silent night Holy night All is calm All is bright 'round yon virgin mother and child Holy infant so tender and mild Sleep in heavenly peace

Tenho certeza que a passagem desta canção durante a cena foi intencional, politicamente encomendada, e com o objetivo de incitar as coisas. Mas eu me pergunto se os escritores e produtores deste episódio cogitaram o quão incrivelmente danosas imagens como aquelas podem ser para mulheres que abortaram, causando reações como memórias recorrentes, pesadelos ou ansiedade piorada.

Mostrar uma protagonista tendo um aborto como se não fosse lá grande coisa mostra uma imensa mensagem. Envia uma mensagem de que é assim que as pessoas devem ver o aborto - como se fosse algo pacífico, ou mesmo que os sentimentos de mulheres que, como eu, fizeram aborto, que o veem como traumático, são de alguma forma inválidos. Penso que é correto dizer que não importa a sua posição no espectro político sobre aborto, é incorreto dizer que não é lá grande coisa.

Após assistir a episódios desse tipo, os espectadores serão capazes de desligar a TV sem ficar agitados, sem ficar perturbados, sem ficarem afetados? Eu creio que não. Eu creio que os escritores do episódio esperavam obter exatamente isto. Mas eu duvido que eles tenham noção do quanto isto, para espectadores como eu, machuca.

META
Título Original I've had an abortion, and it wasn't anything like Scandal's Christmas episode
Autor Megan Rhoades
Link Original http://verilymag.com/2015/12/scandal-winter-finale-planned-parenthood-defunded
Link Arquivado http://archive.today/spqXK

domingo, 4 de dezembro de 2016

"O Mito do Aborto e Crime" por John Lott Jr.

O Mito do Aborto e Crime


Acerca do aborto, há um grande buraco entre John McCain e Barack Obama. Tanto o National Right to Life Committee quanto a Pro-choice America concordam que Obama tem um recorde 100% perfeito de votação pró-escolha. McCain é pro-vida, e os dois grupos respectivamente alegam que ele vota dessa forma em pelo menos 75% das vezes. Isso deve dar um debate animado no outono.

Mas a questão do aborto geralmente se assenta apenas na moralidade do ato (escolha vs. vida), e Mccain e Obama até o momento procuram emoldurar a questão sem mudar. Moralidade certamente é importante, mas sua ênfase perde-se no impacto mais extenso que tais leis têm.

Leis liberadoras do aborto datadas de 1969 até 1973 deram a partida em enormes mudanças sociais de longo termo na América. Esta discussão pode finalmente fornecer uma possibilidade de mensurar como o caso Roe v. Wade mudou os EUA.

Um fato comumente mal compreendido: abortos legais não começaram com Roe ou mesmo com os cinco estados que liberalizaram leis de aborto em 1969 e 1970. Antes de Roe, mulheres podiam ter abortos quando suas vidas ou saúdes estavam sob perigo.

Médicos em alguns estados surpreendentes, como o Kansas, tinham interpretações bastante liberais sobre o que constituía perigo à saúde; ainda assim, Roe substancialmente aumentou os abortos, mais que dobrando a taxa contra nascimentos com vida nos cinco anos desde 1972 até 1977.

Mas muitas outras mudanças ocorreram ao mesmo tempo:
  • Um aumento acentuado do sexo pré-marital;
  • Um aumento acentuado de nascimentos fora do casamento;[NT1]
  • Uma queda no número de crianças postas para adoção;
  • Um declínio nos casamentos que ocorrem após a mulher ficar grávida.

Muitas dessas mudanças podem parecer contraditórias. Por que tanto o número de abortos quanto o de nascimentos fora do casamento subiram? Se ocorrem mais nascimentos ilegítimos, por que há menos crianças disponíveis para adoção?

Para o primeiro enigma, parte da resposta repousa nas atitudes em direção ao sexo pré-marital. Com o aborto visto como uma reserva de segurança, tanto homens quanto mulheres tornaram-se menos cuidadosos no uso de contraceptivos bem como mais dispostos a praticar sexo antes do casamento.

Ocorreram mais gravidezes indesejadas. Mas aborto legal não significa que toda gravidez indesejada levará ao aborto. Afinal, só porque o aborto é legal não acarreta que a decisão é fácil.

Estudos acadêmicos determinaram que o aborto legalizado, ao encorajar o sexo pré-marital, aumentou o número de casamentos não planejados, até mesmo superando a redução do número de nascimentos não planejados em razão do aborto.

Nos EUA dos idos de 1970, quando o aborto foi liberado, até o fim dos idos de 1980, houve um tremendo aumento na taxa de nascimentos fora do casamento, subindo de uma média de 5% de todos os nascimentos de 1965 até 1969 até mais de 16% duas décadas depois (1985 até 1989).

Para negros, os números alcandoraram-se de 35% até 62%. Enquanto nem toda essa subida pode ser creditada às leis de aborto liberalizadas, mesmo assim este foi um fator chave na contribuição.

Com a legalização e uma mulher não sendo forçada a seguir com uma gravidez não-planejada, um homem pode bem esperar que sua parceira vá fazer um aborto se uma conjunção sexual resultar em uma gravidez não-planejada.

Mas, o que acontece se a mulher se recusa - digamos, se ela moralmente se opõe ou, quem sabe, ela cogitou fazer um aborto mas ao longo da gravidez ela decide que não pode prosseguir nessa ideia?

Muitos homens, sentindo-se ludibriados para uma paternidade indesejada, é provável que vão lavar as mãos do caso completamente, pensando "Eu nunca quis um filho. Foi escolha dela, então ela que cuide dele sozinha".

O que era esperado dos homens nessa posição mudou dramaticamente nas últimas quatro décadas. As evidências mostram que a maior disponibilidade do aborto acabou largamente com os "casamentos na mira da espingarda", onde homens se viam obrigados a casar com as mulheres.

O que aconteceu com os bebês desses pais relutantes?

As mães geralmente criam seus filhos sozinhas. Mesmo que o aborto tenha levado a mais filhos fora do casamento, ele reduzira dramaticamente as adoções de filhos nascidos na América por parte de famílias com pai e mãe.[NT2]

Antes de Roe, quando o aborto era muito mais difícil, as mulheres que teriam decidido pelo aborto mas não tinham meios de conseguir um voltavam-se para a adoção como segunda opção. Depois de Roe, mulheres que se voltaram-se para o aborto eram também do tipo que queriam manter a criança.

Mas todas essas mudanças - aumento dos nascimentos fora do casamento, derrubada nas taxas de adoção e fim dos casamentos na mira da espingarda - significaram uma coisa: mais famílias de um só genitor. Com o trabalho e outras demandas do de seu tempo, genitores solteiros, não importando o quanto possam desejar seus filhos, tendem a devotar menos atenção a seus filhos que casais casados; afinal, é difícil para uma pessoa só dispender tanto tempo com uma criança quanto duas pessoas.

Desde o começo do debate acerca do aborto, aqueles favoráveis ao aborto apontavam para os custos sociais dos "filhos indesejados" que simplesmente não teriam tanta atenção quanto os "desejados". Mas há uma troca de custo&benefício que foi por muito tempo negligenciada. O aborto pode eliminar filhos indesejados, mas aumenta nascimentos fora do casamento e parentela solteira. Infelizmente, as consequências sociais da bastardia dominaram.

Crianças nascidas depois das regras de aborto liberalizadas sofreram uma série de problemas, de dificuldades na escola até mais crime. O fato mais pesaroso é que são os mais vulneráveis na sociedade, negros pobres, que mais sofreram com estas mudanças.

Não importa quem vença as eleições ou controle a Suprema Corte, abortos dificilmente serão proscritos, bem como eles não foram proscritos antes de a corte decidir Roe v. Wade em 1973.

O aborto liberalizado indubitavelmente tornou a vida mais fácil para muitos, mas como o próprio sexo certas vezes, pode ter muitas consequências indesejadas.

Crimes violentos nos EUA dispararam depois de 1960. De 1960 a 1991, crimes violentos reportados cresceram até inacreditáveis 372%. Esta tendência perturbadora foi vista ao longo de todo o país, com roubos alcançando o pico em 1991 e estupro e assalto com agravantes seguindo em 1992. Mas então algo inesperado ocorreu: Entre 1991 e 2000, as taxas de crimes violentos e crimes de propriedade desabaram, caindo 33% e 30% respectivamente. Taxas de assassinato estabilizaram-se até 1991, mas então despencaram a 44%.

Muitas explicações plausíveis foram oferecidas para a queda durantes os idos de 1990. Alguns reforçam as medidas de garantia de cumprimento da lei, como maiores taxas de captura e condenação, maiores sentenças prisionais, estratégias policiais de "janela-quebrada", e pena de morte. Outros enfatizam leis de direito ao porte oculto de armas de mão, economia mais forte, ou ao gradual descenso da epidemia de cocaína e crack.

Ainda assim, de todas as explicações, talvez a mais controversa é aquela que atribui as taxas mais baixas de crime nos idos de 1990 a Roe v. Wade, a decisão da Suprema Corte que em 1973 autorizou o aborto legalizado. De acordo com esse argumento, o número maior de mulheres que começaram a abortar logo depois de Roe eram mais provavelmente não-casadas, ou adolescentes, ou pobres, e seus filhos seriam "indesejados". Crianças nascidas sob essas condições teriam uma probabilidade maior-que-a-média de tornar-se criminosos, e teriam adentrado suas adolescências - o "primado criminal" - no começo de 1990. Mas como eles foram abortados, não estão mais por aí para causar problemas.

É uma teoria que chama a atenção, certamente, possivelmente ainda mais notória que a pesquisa recente indicando que liberalizar o aborto aumenta o sexo pré-marital, o número de filhos fora do casamento, reduz adoções e acaba com os conhecidos casamentos na debaixo da espingarda.

Mas uma análise exaustiva e precisa do aborto e das estatísticas criminais aponta para a conclusão oposta: que o aborto aumenta o crime.

A questão sobre aborto e crime foi profundamente influenciada por um estudo sueco publicado em 1966 por Hans Forsman e Inga Thuwe. Eles acompanharam os filhos de 188 mulheres que tiveram seus abortos recusados de 1939 a 1941 no único hospital em Gothenburg, Suécia. Seu estudo comparava estas crianças indesejadas com outro grupo, composto daqueles com um primeiro filho nascido no hospital após cada uma das indesejadas. Eles descobriram que as crianças indesejadas eram muito mais propensas a crescer em ambientes adversos - por exemplo, com pais divorciados, ou em casas de adoção. Estas crianças também são mais propensas a tornar-se delinquentes e ter problemas na escola. Infelizmente os autores jamais investigaram se a "indesejabilidade" das crianças lhes causou tais problemas ou se era apenas correlacionada a eles.

A alegação de Forssman e Thuwe, não obstante a limitação dos dados que a suportam, tornou-se axiomática entre os defensores do aborto legalizado. Nos anos 60 e 70, antes de Roe, defensores do direito ao aborto atribuíam toda sorte de mazelas sociais, incluindo crime e doenças mentais, aos filhos indesejados. Ceifar estas pessoas pobres e propensas ao crime da população era apresentado como uma forma de tornar a sociedade mais segura.

De fato, a Comissão Rockfeller de População e Futuro Americano de 1972, estabelecida por Richard Nixon, citou pesquisas sugerindo que filhos de mulheres que tiveram seu aborto negado "acabaram por ser registrados mais frequentemente em serviços psiquiátricos, adentraram mais em comportamento anti-social e criminoso, e têm se tornado mais dependentes de assistência pública".

Mesmo na decisão da Suprema Corte em Roe v. Wade, o Magistrado Harry Blackkmun notou os mesmos problemas sociais atribuídos aos "filhos indesejados".

Recentemente, dois economistas - John Donohue e Steven Levitt - tentaram ressuscitar o debate. Eles apresentaram evidência que supostamente demonstraria o impressionantemente grande efeito nas taxas de crime, e argumentou que até "metade da taxa total de redução de crimes" entre 1991 e 1997, e até 81% da queda nas taxas de homicídio durante esse período, era atribuível ao aumento de abortos no início até o meio dos anos 1970. Se esta alegação fosse precisa, eles certamente teriam encontrado o Santo Graal da redução de crimes.

A maioria das pessoas que desafiou o argumento "aborto reduz crime" o fez em bases éticas, em vez de tentar rebater a evidência empírica. Mas vale a pena olhar para os dados também - porque eles não provam o que deveriam provar.

A fim de entender por que o aborto pode não conter o crime, devemos primeiro lidar com o quão dramaticamente ele mudou os relacionamentos sexuais. Uma vez que o aborto tornou-se largamente disponível, pessoas engajaram-se em muito mais sexo pré-marital, e também tomaram menos cuidado no uso de métodos contraceptivos. Aborto, afinal de contas, ofereceu uma reserva se a mulher acabasse grávida, tornando o sexo pré-marital e o mau uso de contraceptivos menos arriscado. Na prática, porém, muitas mulheres veem que não podem prosseguir com um aborto, e os nascimentos fora do casamento dispararam. Poucas dessas crianças nascidas fora do casamento foram postas para adoção; a maioria das mulheres que não estava disposta a ter abortos também não estava disposta a entregar seus filhos. O aborto também removeu a pressão social sobre homens a casarem-se com as mulheres que eles engravidaram. Todos esses efeitos - mais nascimentos fora do casamento, menos adoções que o esperado, e menos pressão para os homens "cumprirem o seu dever" - levou a um subida repentina no número de famílias com apenas um genitor.

Múltiplos estudos documentam essa mudança. Do começo dos 1970 ao final dos 1980, houve um tremendo aumento na taxa de filhos fora do casamento, de uma média de 5% (1965-1969) a mais de 16% depois de vinte anos (1985-1989). Entre os negros, o número saltou de 35% a 62%. Enquanto nem todo esse aumento pode ser atribuído a leis de aborto liberalizadas, elas certamente forneceram uma contribuição chave.

O que aconteceu a todas aquelas crianças criadas por mães solteiras? Não importa o quanto elas desejem suas crias, genitores solteiros tendem a devotar menos atenção a eles que casais casados. Genitores solteiros são menos propensos que casais a ler para seus filhos ou levá-los a excursões, e mais propensos a sentir-se irados por seus filhos ou senti-los como se fossem um fardo oneroso. Filhos nascidos fora do casamento têm mais problemas sociais e de desenvolvimento que filhos de casais em praticamente qualquer medição - seja graduações na escola, expulsão ou doenças. Não é surpresa que filhos de famílias não casadas também sejam mais propensos a tornar-se criminosos.

Então as linhas de argumentação opostas no debate "aborto reduz crime" são claras: um lado reforça que o aborto elimina crianças indesejadas, o outro reforça que aumenta o número de nascimentos fora do casamento. A questão é: que consequência do aborto tem maior impacto no crime?

Infelizmente para aqueles que argumentam que aborto reduz crime, a pesquisa de Donohue e Levitt sofre de falhas metodológicas. Como notou The Economist, "Donohue e Levitt não executaram o teste que disseram ter executado". Um trabalho de dois economistas do Boston Federal Reserve, Christopher Foote e Christopher Goetz, descobriu que, quando eram executados corretamente, os testes indicavam que o aborto na realidade aumentava os crimes violentos. John Whitley e eu escrevemos um estudo que encontrou uma conexão semelhante entre aborto e assassinato - a saber, que legalizar o aborto elevou a taxa de assassinatos, em média, em aproximadamente 7%.

A teoria que "aborto diminui crime" acaba entrando em mais problemas quando a população é analisada por grupos de idade. Suponha que a liberação do aborto no começo dos anos 1970 pudesse de fato explicar até 80% da queda dos assassinatos durante os anos 1990, como alegam Donohue e Levitt. Desregular o aborto então reduziria a criminalidade primeiro nos grupos etários nascidos após as leis de aborto terem mudado, quando os elementos "indesejados" e propensos ao crime começaram a ser ceifados. Apesar disso, quando olhamos para o declínio nas taxas de homicídio durante os anos 1990, descobrimos que este não é o caso afinal. Em vez disso, as taxas de crime caíram primeiro entre aqueles de uma geração mais velha - os de mais de 26 -, nascidos antes de Roe. Só depois é que a criminalidade entre aqueles nascidos após Roe começou a declinar.

Legalizar o aborto aumenta o crime. Aqueles nascidos nos quatro anos após Roe eram muito mais propensos a cometer assassinato do que aqueles nascidos nos quatro anos anteriores. Isto fica especialmente verdadeiro quando estão em seu "primado criminal", como mostrado no gráfico.

O argumento de "aborto diminui o crime" fica ainda mais fraco quando se olha para os dados do Canadá. Enquanto as taxas de crimes em ambos Estados Unidos e Canadá começaram a declinar na mesma época, o Canadá liberalizou suas leis de aborto muito mais tarde que os EUA. Ainda que Quebec efetivamente tenha legalizado o aborto no final de 1976, não foi até 1988, em um caso originário de Ontário, que a Suprema Corte canadense efetivamente eliminou os limites de aborto em toda nação. Se a legalização do aborto nos EUA causou uma queda no crime 18 anos depois, por que a taxa de crime começou a cair apenas três anos depois da mudança legal correspondente no Canadá?

Mesmo que o aborto tenha diminuído o crime ao eliminar os "filhos indesejados" (uma conclusão derivada de estatísticas falhas), este efeito seria enormemente superado pelo aumento do crime associado com a maior incidência de famílias de apenas um genitor que também se seguiram da liberalização do aborto. Resumindo: mais aborto gerou mais crime.

Este artigo foi publicado originalmente na Fox News.


FootNotes:
  • NT1: Nao tem uma tradução muito boa para "out-of-wedlock" - algo como "fora da trava de matrimônio"...
  • NT2: Mais uma tradução meio chatinha: ele fala "two-parent families". Dada a "neutralidade de gênero", preferi "genitores" ao longo do texto.

META
Título Original The Myth of Abortion and Crime
Autor John R. Lott Jr
Link Original https://www.lewrockwell.com/2008/07/john-lott/the-myth-of-abortion-and-crime/
Link Arquivado http://archive.today/vV5nF

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